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O tempo que dura o tempo

Haisem Abaki

24 de agosto de 2013 | 11h22

Quanto tempo dura o tempo? Resposta pronta: o dia tem 24 horas, a hora tem 60 minutos, o minuto tem 60 segundos… Aprendi e ajudei a espalhar a mentira por aí, transmitindo tamanho conhecimento a duas pessoinhas que acreditam em mim o tempo todo. Uma hora, mais cedo ou mais tarde, o próprio tempo se encarrega de acertar os ponteiros e mostrar a verdade em tempo real.
Fico quatro horas por dia dentro de um estúdio ao vivo, muitas vezes falando de improviso. E o tempo voa. O programa termina e parece que só durou alguns minutos. Também gosto das outras três horas da jornada, mas elas demoram um pouco pra passar. O mais é menos e o menos é mais.
Nada como uma ida de livre e espontânea obrigatoriedade ao hospital para mostrar que não há do que reclamar. Os médicos são ótimos, explicam tudo direitinho e dizem que a cirurgia é simples e rápida. A turma da enfermagem é de gente atenciosa, simpática e prestativa.
Então, fiquei bem tranquilo, calminho, calminho. Tudo bem, rolou uma leve tensão pré-operatória. Certo, um incômodo de nada. Sim, uma ponta de nervosismo. Mas sem nenhum medo. Ah, um receiozinho suave até a hora da “partida da maca”. Ah, cara, medo total e pronto.
Mas disfarcei bem e me segurei ali, firme e forte. Sou bom nessas coisas… Só que antes de se deitar na maca e me deixar para trás alguém muito especial me faz uma declaração de amor. Foram apenas duas palavrinhas, mas não adianta que não vou contar. Respondi com outras três. Eu falo muito mesmo, mas fiquei sem graça diante do “enfermeiro desconhecido”, que testemunhou tudo.
Já recuperado, iniciei a espera no maior sossego. Sentei na poltrona do quarto e olhei para o relógio. Liguei o rádio, coloquei os fones nos ouvidos e olhei para o relógio. Ouvi as notícias que eu não estava dando e olhei para o relógio. Acompanhei entrevistas e comentários que eu não estava fazendo e olhei para o relógio. Escutei cada hora certa que eu não estava falando e olhei para o relógio.
E foi assim quase o tempo todo, que parecia uma eternidade. Sensação interrompida pelas tristes notícias da Síria, a terra de todos da minha família que vieram antes de mim. Pensei nas pessoas para as quais o tempo já não faz a menor diferença e vi que tempo, pelo menos, eu ainda tenho.
Pra espantar a tristeza, resolvi buscar uma música qualquer e voltar para a minha espera, que já tinha se transformado em uma quase alegria. Ouço os primeiros acordes e logo identifico… “I can wait forever”. Air Supply, sempre me perseguindo e me fazendo viajar no tempo…
Os médicos apareceram duas horas depois do início da contagem e acabaram com aquele “forever”. Só achei muito extensos os centímetros de distância entre a porta e a poltrona e excessivamente demorados os segundos entre os apertos de mão e o começo da conversa. Tudo certo, problema resolvido e algumas recomendações para a paciente que retornaria em 30 minutos.
Alívio total, só mais 30 minutos. Que viraram 31, 32, 33… E quase 60 minutos depois, finalmente, “a chegada da maca”. Todo esse tempo que passou “tartarugamente” foi bom pra mostrar que não é preciso perder tempo se preocupando com o tempo e que é tempo de ser feliz a qualquer tempo. Poderia gastar um tempão falando sobre o assunto, mas é pura perda de tempo. Até o “enfermeiro desconhecido” deve ter percebido o que realmente importa naqueles poucos segundos que tivemos “a três”.
A partir de agora, ninguém mais vai controlar o meu tempo. Tá bom, a sorridente “moça desconhecida” do caixa do estacionamento do hospital é uma exceção. Ali, num breve momento “a dois” que vivemos, o tempo virou dinheiro. Uma parte de mim chamada “45 reais” ficou com ela. Mas a melhor parte cruzou a cancela e foi embora. Rumo ao agora e sempre…

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