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O pódio e o ódio

Haisem Abaki

19 Agosto 2016 | 09h44

Era para ser uma crônica sobre a Olimpíada, mas não vai rolar. Não é por falta de assunto porque isso tem de sobra e é só escolher. Daria até pra juntar vários de uma vez só e construir uma história cheia de momentos marcantes, para o bem e para o mal. Só que não.

Adoraria escrever sobre pódios, medalhas no peito e hinos sendo tocados enquanto bandeiras são hasteadas. Qualquer hino, já que gosto de todos. Não por entender o que dizem ou a técnica musical, apenas pelo simbolismo e pela emoção que provocam. Só que não.

Pensei em falar sobre atletas que caíram e sentiram a decepção da derrota e que depois se levantaram e superaram os próprios limites físicos e psicológicos em épicas vitórias. O Diego Hypólito, por exemplo. Só que não.

Ou então poderia ser uma crônica sobre gente pobre e marginalizada que encontrou no esporte uma porta aberta para a chance que a vida não deu. A Rafaela Silva certamente seria personagem num texto assim. Só que não.

Outro tema muito bom seria a dor. Dizem que todo atleta sente dor. Aí daria pra falar de todo tipo de dor. A física, a emocional, a da alma. E ainda daria pra incluir a solidariedade, como a das atletas que caíram, sentiram dor e se ajudaram pra seguir em frente na corrida. Só que não.

Imaginei ainda registrar algo sobre o que se pode fazer enquanto o Bolt corre os 100 metros em menos de 10 segundos. Parece pouco tempo, mas é certamente o suficiente para ser feliz aproveitando cada instante. Só que não.

E daria também pra fazer uma crônica com temas variados, como as meninas raçudas do futebol, os atletas batendo continência, o comportamento da torcida, os nadadores americanos que inventaram um assalto ou a delegação de refugiados. Ou ainda sobre aquele cachorro-quente sem graça a 13 reais. Só que não.

Ah, tem outro tema que eu gostaria de abordar. É sobre como de repente viramos 200 milhões de técnicos de salto com vara, judô, rugby, handebol, boxe, levantamento de peso e aquelas lutas em posições comprometedoras transformadas em memes. Só que não.

E tive ainda a última tentação de contar como passei uma noite com meus filhos vendo uns grandalhões na competição de arremesso de peso como se fôssemos comentaristas especializados nessa eletrizante modalidade. Só que não.

Todas essas alternativas viraram “só que não” porque perdi completamente a vontade de tudo ao ver a imagem do menino sírio Omran, de cinco anos, sendo retirado vivo dos escombros de um prédio depois de um bombardeio. A expressão do rosto daquela criança espelha o nosso fracasso diante do ódio e da intolerância patrocinados por superpotências de peito medalhado. Somos todos omissos nessa e em outras perversidades, lá longe e aqui perto. Isto não é uma crônica. Era para ser. Só que não.