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O mal do “coitadismo”

Haisem Abaki

17 Novembro 2017 | 11h56

Eu não sou filósofo. Eu não sou historiador. Eu não sou sociólogo. Eu não sou cientista político. Nem psicólogo e muito menos estrategista de comportamento de massas. Sou apenas um observador atento que deixam falar no Rádio há mais de 30 anos e escrever suas impressões aqui.

E, com base nessas minhas “imensas” qualidades comunicativas, falo e escrevo sobre indignações, inquietações, curiosidades e, claro, bobagens que nos fazem ser o que somos: simplesmente humanos. Às vezes faço essas quatro coisas juntas, porque na verdade elas se confundem com muita frequência.

Feita essa introdução meramente enroladora, compartilho (verbo da moda) algo que tem me incomodado muito ultimamente. Do futebol à política, passando por esse negócio genérico e abstrato chamado nossa vida do dia a dia. É a vitimização como arma de defesa, estratégia de sobrevivência e desculpa para nossas falhas e mazelas.

É como se a gente sempre tivesse que colocar a culpa em alguém pra justificar o injustificável. E talvez o outro lado dessa moeda seja o nosso culto reverencial aos salvadores da pátria, como se fôssemos eternos escravos de um paternalismo de conveniência. E viva a Princesa Isabel, que com sua benevolência nos livrou da desumanidade escravocrata. Ah, então foi graças a ela e não aos que lutaram e pagaram com a própria vida por um “sonho” de liberdade?

Desviei um pouco o caminho, mas volto ao tema central: a culpa que é sempre “dos outros”. E o mantra da perseguição injusta vale pra tudo. Se no começo do ano disserem que o meu time está em desvantagem em relação aos rivais e, com o andamento das competições houver uma inversão de papéis, eu digo que fomos injustiçados e ganhamos contra tudo e contra todos.

Tá bom, vale como discurso de superação e exemplo motivacional em palestras e livros de autoajuda. E não seria tão relevante se a coisa ficasse só no futebol, onde seria tratada apenas como mi-mi-mi na saudável rivalidade que muitas vezes descamba para a violência e a intolerância.

Mas não fica só aí. No Rádio e na TV, nosso presidente de plantão surge em um programa do partido dele que denuncia uma “trama” para derrubá-lo. Até tu, Temer? Culpa do PT, claro! Mas em outro filme que já assistimos os papéis estavam invertidos. Culpa do PMDB, óbvio! E nessa linha torta de raciocínio os tucanos e qualquer outro político ou partido que seja denunciado também é uma pobre vítima de adversários maquiavélicos.

Ah, se ficasse só na política… Não! A culpa sempre é do outro nos ambientes de trabalho, nos casamentos e relacionamentos. Até no portão fechado do Enem com o candidato do lado de fora! Sempre esse tal de “outro” pra ferrar com a nossa vida…

Mas somos vítimas mesmo é da nossa falta de hábito e disposição para o diálogo, para falar menos e ouvir mais e da eterna esperança de que “alguém” vai aparecer para nos salvar. Só vamos sair dessa situação de paralisia quando cada um de nós assumir a sua culpa proporcional nessa imensidão de culpas alheias.

Ou então vamos exigir do governo que a gente elege, esse culpado-mor de tudo, mais investimentos para acabar com o grande mal que nos aflige. Precisamos de mais coitadólogos para nos tratar. Que sejam instituídas faculdades de coitadologia para formar especialistas. E que possamos detectar nossos problemas em equipamentos de coitadografia computadorizada e de coitadonância magnética.

E que o sistema público de saúde ofereça internações coletivas para os casos mais graves de coitadólatras e forneça aparelhos de coitadometria para medir as nossas coitadices. Se tem gente que acha que existe uma cura gay, talvez também possamos encontrar a cura para o coitadismo.

Sei que há quem possa negar a própria coitadopatia e queira me atacar por tais comentários. Já estou coitadologicamente preparado para as reações. Coitado de mim. Não, prefiro dizer tadinho de mim. O diminutivozinho é bem mais simpático. Descoitadogiolizar é preciso!