As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O leite e o saquinho

Haisem Abaki

11 Maio 2013 | 16h29

Os bandidos do leite contaminado provocaram quatro reações em mim. A primeira foi a raiva. A segunda foi a vontade de jogar tudo fora. A terceira foi a desconfiança generalizada, com exceção da vaca, a única nessa história que não merece ser malhada. A quarta foi um misto de saudade e inocência. A inocência da minha primeira “mentira”.
Com mais ou menos sete anos, eu já ia comprar pão e leite sozinho na padaria da esquina todas as manhãs. Sim, naquele tempo era um hábito diário e o branquelo vinha num saquinho, bem geladinho. Eu adorava aquele líquido, mas só depois de misturado com ovomaltine.
A padaria ficava na mesma calçada do meu prédio. No caminho, eu sempre era parado por uma senhora muito gentil, dona de uma loja. Uma boa alma, sem dúvida. Hoje eu reconheço isso. Mas na época, ah, meu saquinho!
Ela me chamava, pegava na minha mão e dizia bom dia com um sorriso. Depois, perguntava se eu estava indo comprar pão e leite, se tinha dormido bem, se mamãe e irmãozinho já estavam acordados, se papai já estava trabalhando, se tudo ia bem comigo na escola… Ah, meu saquinho!
Era esse ritual todos os dias, com poucas mudanças. Ela sempre era carinhosa e não largava da minha mão até eu dar todas as respostas inéditas de sempre. E na volta ainda acenava e se despedia com um “vai com Deus, querido”. Ah, meu saquinho!
Não contei pra minha mãe, que naquele tempo era mais durona e dizia que eu tinha que ser bem-educado com os vizinhos. Se eu aprontasse, ficaria de castigo atrás da porta do quarto.
Um dia saí do prédio e não virei à esquerda, como de costume. Não planejei nada, deve ter sido instinto… Fui até a outra esquina e virei à direita, outra vez à direita, de novo à direita e mais uma à direita. No retorno, tudo à esquerda, sem passar pela loja da vizinha.
E assim foi nos dias seguintes. Direita, direita, direita, direita. Leite e pãozinho. Esquerda, esquerda, esquerda, esquerda. Demorava mais, mas eu não precisava responder sempre a mesma coisa, com a mãozinha sendo alisada.
Até o dia em que fui descoberto… A vizinha viu minha mãe e perguntou o que havia acontecido comigo, que não passava mais por lá a caminho da padaria. Fui cobrado em casa e respondi que não aguentava mais aquilo. Minha mãe retrucou e eu soltei um “ah, meu saquinho” que ela não gostou. Dez minutos atrás da porta por causa do “palavrão”. Ainda tentei em vão dizer que estava falando do saquinho de leite…
Hoje até sinto saudades das perguntas repetitivas e carinhosas daquela senhora que não existe mais. A padaria fechou e o prédio onde morei até os nove anos parece abandonado.
Agora só quero que o leite que os meus filhos bebem seja leite mesmo. Quando eles acordam, já estou trabalhando. Mas eu telefono todos os dias para os dois e nas conversas sempre observo a individualidade que cada um merece.
Para o rapazinho, pergunto se está tudo certo, se dormiu bem, se tomou café direitinho, se estudou…
Para a mocinha, pergunto se está tudo certo, se dormiu bem, se tomou café direitinho, se estudou…
Ah, o saquinho deles!

… … … … …

Feliz Dia das Mães! Hoje já entendo a razão de serem tão repetitivas…