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O juiz e o juízo

Haisem Abaki

09 de junho de 2017 | 11h40

Correndo na rua, todo suado, vejo um antigo conhecido vindo na “contramão”. Foi um rápido cumprimento e logo cada um seguiu o seu caminho, mas ainda houve tempo para ele me perguntar “da vida” e dizer que desisti de uma carreira jurídica para me “dar bem” no jornalismo.

O restante da corrida foi de lembranças e reflexões. De 1983 a 1986, dos 19 aos 22 anos, trabalhei no Judiciário enquanto fazia a faculdade de Jornalismo. Era só atravessar a rua: o fórum era de um lado e a universidade do outro. Jornada de segunda a sexta e com um ótimo salário na época para um sujeito livre, leve, solto e sem compromissos.

Juízes, promotores, advogados e colegas de trabalho me incentivavam a cursar Direito e entrar na Magistratura ou no Ministério Público. Mas eu não me via no papel de julgador ou acusador de ninguém e, para um disfarçado contragosto maternal, pedi exoneração e fui para uma redação de rádio e jornal ganhando bem menos e com plantão de fim de semana.

Gosto muito das palavras “democracia” e “transparência” e, do meu modo, sempre lutei por elas na minha prática profissional. Eu não deveria me incomodar em fazer entrevistas, pois esta é uma das atividades básicas do jornalista, principalmente no rádio. Mas confesso minha resistência, cada vez maior, a entrevistar juízes.

Sou de um tempo (sei que quem diz isso é velho) em que juiz só falava nos autos. E esta é uma carreira pela qual tenho muito respeito e que é indispensável para a democracia, que estará muito mais consolidada e fortalecida se houver total independência de juízes, promotores e procuradores.

Conheço pessoalmente muita gente que dignifica essas carreiras. Longe de mim as generalizações. Mas condeno a desenvoltura verborrágica de quem, na condição de juiz, fala abertamente sobre tudo, gosta de aparecer em entrevistas, frequenta palácios fora de hora, participa de banquetes, viaja em aviões com outras autoridades e demonstra uma intimidade sem constrangimento com integrantes de outros poderes. Nós, jornalistas, também temos dado a nossa parcela de contribuição a esse culto ao ego.

Pior ainda é quando o juiz não se envergonha de ser torcedor e de mudar suas “convicções” ao sabor das conveniências políticas, ideológicas e partidárias. Uma hora é o algoz da Inquisição e na outra defende a “tese jurídica” de Compadre Washington, a famosa e surrada “sabe de nada, inocente”.

Caso venha a me encontrar de novo com o amigo na “contramão” da corrida, vou dizer que não me arrependo da escolha que fiz. Jornalista também comete erros, às vezes se deslumbra com a proximidade do poder e se comporta como torcedor, mas, “modéstia às favas”, acho que eu seria absolvido pelo tribunal da minha consciência. Se bem que tem hora que dá vontade de ser um índio não contatado da Amazônia. Deve haver mais juízo na tribo.

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