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O jeito quadrado da idade redonda

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h44

Publicado pela 1ª vez em 13/06/2008
Tenho um amigo que anda introspectivo porque acaba de completar 30 anos. É o Cristóvão, que os leitores já conheceram como coadjuvante nas histórias de outro amigo, o Tadeu (nomes fictícios, de gente de carne e osso). Cristóvão passa agora a ser personagem principal, mas não convém identificá-lo numa fase em que está tão ensimesmado.
Sei bem o que ele está passando. Idades redondas são quase sempre implacáveis e chegam acompanhadas de um monte de perguntas em forma de pensamento:
– E agora, como é que vai ser?
– O que é que eu fiz até agora?
– Será que valeu a pena?
Há também as perguntas feitas por outras pessoas, que nem sempre são explícitas. Às vezes, surgem disfarçadas em forma de comentários, conselhos, chavões batidos ou simples olhares de duplo sentido. Se o sujeito ainda está livre leve e solto, como o Cristóvão, são em tom de cobrança, mais ou menos assim:
– Trintinha, hein… já pode casar!
– E a… (nome de mulher)? Vocês formavam um belo par!
– Você está muito bem (depois de um detalhado olhar, nos sentidos latitudinal e longitudinal). Nem parece que já tem 30 anos!
Às vezes vem um elogio, que também esconde uma ressalva:
– Nossa! Você já conquistou tanta coisa! Com certeza ainda vai crescer mais profissionalmente! (Tradução: você só está engatinhando).
– Você vai ver que o amadurecimento ensina muita coisa… (Tradução: você ainda não sabe de nada).
E se o sujeito ainda mora com os pais (não é o caso do Cristóvão) pode surgir uma pergunta mais direta:
– Você não tem vontade de morar sozinho?
Há também os que querem ajudar, mas deixam uma pulga atrás da orelha do aniversariante:
– Você já pensou em fazer um check-up?
Soube que Cristóvão tem se olhado no espelho e vem passando por profundas transformações. Eis o resumo do âmago do meu amigo, nas palavras dele mesmo, sobre o que já percebeu ao se transformar num trintinha:
– Nota-se o surgimento dos primeiros pêlos na orelha.
– A papada fica levemente arredondada.
– É visto de forma diferente quando está de bermuda. Seus amigos, todos casados, usam calça de sarja.
– Suas bandas prediletas encerraram a carreira há 10 anos.
– É pela primeira vez chamado de tio.
– Acompanha dia a dia com sua mãe a trajetória de Juvenal Antena.
– Pronuncia pela primeira vez a frase “No meu tempo não era assim”.
– Sua avó diz que está ficando careca.
– Volta para as aulas de inglês que odiava quando tinha 15 anos.
– Acha que NXZero é o nome de um novo modelo de videogame.
– Se emociona com o tema da campanha Criança Esperança.
Sou 14 anos mais velho do que o Cristóvão e sinto-me no direito de dar um conselho que ele não pediu. Fique tranquilo porque, ao entrar na fase dos “enta”, você já não se lembrará de mais nada disso. Tudo já estará naturalmente incorporado (e talvez encorpado) ao seu cotidiano.
Fiz um grande esforço e consegui me lembrar dos meus já distantes 30 anos, quando era mais impetuoso, agitado e não gostava de levar desaforo para casa.
Se alguém me desse uma fechada no trânsito, eu logo xingava e fazia gestos obscenos. Hoje deixo o sujeito passar e dou tchauzinho.
Eu adorava falar, contar histórias e ficava bravo se a pessoa não prestasse atenção em mim. Hoje gosto de ouvir as histórias que me contam.
Eu ficava ansioso, pensando como seria a experiência da paternidade e o que ensinaria aos meus filhos. Hoje me divirto e aprendo muito com eles.
Eu ficava contrariado ao receber críticas e aquilo não deixava o meu pensamento por vários dias. Hoje agradeço aos críticos, avalio no que é possível melhorar, mas nem sinto mais o martelo na cabeça.
Eu pensava muito antes de falar, com medo de cometer alguma gafe. Hoje relaxo falando bobagens.
Eu saltava da cama de madrugada para trabalhar, muitas vezes antes de o despertador tocar. Hoje me arrasto da cama de madrugada, depois do toque do segundo despertador.
Eu pensava muito antes de fazer um trocadilho infame. Hoje faço trocadilhos infames antes de pensar.
Eu adorava fazer experimentações com shampoos e lia todos os rótulos. Hoje escrevo xampu com xis e uso o que a minha mulher compra para mim. Quando acaba, pego o dela ou até o das crianças.
Aos 30 anos, eu arrancava o primeiro fiozinho branco de barba que teimava em aparecer. Hoje já penso que em breve poderei fazer um bico no fim do ano. Ho, ho, ho!
Eu ia ao estádio ver os jogos do Palmeiras, xingava o juiz e voltava rouco. Hoje fico em casa e às vezes só tomo conhecimento do resultado no dia seguinte.
Aos 30 anos, eu acompanharia a recente final entre Sport e Corinthians torcendo DE-SES-PE-RA-DA-MEN-TE pelo Sport. Mas como já tenho 44, apenas torci desesperadamente pelo Sport.
Enfim, meu caro Cristóvão, você verá que tudo passa e que o tempo de ser feliz é e sempre será “hoje”. No entanto, aceite meu último conselho: comece arrancando os pêlos da orelha de vez em quando. Dói um pouco, mas é um momento único. Só você e a pinça, a pinça e você. Certamente, há grandes e novas descobertas a fazer e você encontrará o seu ovo de Colombo, Cristóvao!

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