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O gato e o galo

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h23

Publicado pela 1a vez em 02/04/2008 08:00:00
– Acorda menino, o gato do rádio já está dizendo miaaaaaau!

Eu resmungava pedindo mais tempo e logo vinham as irritantes cócegas.

Era o ano de 1973 e, aos 9 anos, eu não entendia porque precisava acordar cedo se estudava à tarde. Meu pai tinha resposta para tudo:

– Acordar cedo é bom para a saúde, vagabundinho.

Eu tomava café quase dormindo e ouvindo aquele sujeito agitado e de voz grave. Às vezes, quando o tal gato miava, eu era cutucado com mais cócegas e ficava ainda mais irritado. Começava aí minha relação de ódio com o homem do gato.

A coisa piorou em 1975, quando passei a estudar de manhã, já na quinta série.

– Acorda, vagabundinho. Olha a aula, miaaaaaaaaaau!

Esse era meu pai, mas ao fundo, diretamente da cozinha, o homem do gato completava aquele dueto involuntário.

Um dia eu não aguentei aquilo:

– Eu quero um cachorro, eu quero um cachorro!

Nunca fui atendido.

A caminho da escola, na Brasília verde, lá estava o homem do gato, onipresente, a me atormentar.

Meu pai “conversava” com ele, concordava com tudo o que era dito no rádio e ainda achava graça.

Um dia, comecei a prestar mais atenção nele. Percebi que tinha até nome: José Paulo de Andrade. Aos poucos, com aquela rotina diária, as coisas que ele dizia passaram a ser tema de conversa a caminho da escola. Começava aí minha relação de amor com o homem do gato.

Um dia, fiz o pedido:

– Eu quero um gato, eu quero um gato!

Fui atendido, mas era uma gata, que logo nos deu seis filhotes.

As lembranças vieram no fim da tarde de ontem, 1o de abril, depois de o celular tocar.

Era a Thays Freitas, editora-executiva da Rádio Bandeirantes, pedindo a minha participação, com um depoimento, no aniversário de 35 anos de “O Pulo do Gato”, nesta quarta, 02 de abril. Foi tudo armado para uma grande e merecida surpresa, no ar, durante o programa. Desliguei o telefone e fiquei irrequieto, em pensamento:

– Tenho tanta coisa pra dizer, mas o que dizer?

O fato é que o homem do gato está entre os que tiveram influência na minha escolha profissional. Ele foi tão importante que um dia tive medo de me decepcionar com ele.

Em 1998, quando o então diretor de Jornalismo Marcelo Parada me chamou para trabalhar na Bandeirantes, logo pensei como seria o meu encontro com o homem do gato.

O primeiro contato não foi pessoal, mas pelo rádio. Fui direto para o helicóptero e, ao me chamar para a primeira informação de trânsito, me deu as boas-vindas. Foi como se tivesse recebido dele uma bola açucarada pra fazer um gol.

Depois, quando finalmente nos encontramos, apertou a minha mão e sorridente me deu um tapinha nas costas. Como se não bastasse, disse que acompanhava o meu trabalho e que era meu fã. Respondi de pronto:

– Desculpe, Zé, mas essa fala é minha!

Meu pai quis saber como tinha sido o encontro e ficou feliz e orgulhoso com o relato.

Nesses dez anos de convivência, o homem do gato sempre me tratou como se tivesse conhecido aquele menino reclamão de nove anos. É um grande incentivador, um conselheiro e já me premiou com várias oportunidades de substituí-lo (a palavra não é a mais correta, mas não achei outra) e até de dividir o microfone com ele. Passei minha admiração adiante e minha filha, hoje coincidentemente aos nove anos, já acha o gato “um fofinho”, como ela diz.

E assim termina essa pequena história da vida real, sobre o gato e o galo. Opa! Não expliquei nada sobre o galo. É que o garoto que era acordado por aquele irritante gato, por motivos profissionais, passou a despertar ainda mais cedo, antes do galo. Meu pai e o homem do gato prepararam o “vagabundinho” para isso.

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