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O fim do mundo é hoje

Haisem Abaki

13 Outubro 2017 | 12h51

– Pai, eu te ouvi no rádio hoje.

A frase dita pelo meu garotaço deveria me encher de orgulho, mas me deixou preocupado.

– Então me conta o que eu tava falando.

– Sei lá. Um monte de coisas. Mas eu só prestei atenção no futebol.

Fiquei aliviado. Não sou o tipo de pai que “protege” os filhos do mundo. Penso que devem estar bem preparados para enfrentá-lo e uma das “armas” para isso é o acesso à informação e à educação. Com muito diálogo e mostrando, sim, que a vida nem sempre é cor-de-rosa.

Mas naquele dia fiquei preocupado porque era só notícia de corrupção, crimes, guerras e tragédias. E no fim das contas é disso que o jornalismo vive e se ocupa. E é disso que as pessoas “querem” saber. Será?

Pior ainda é que em tempos que seriam de liberdade, de compreensão, de tolerância e de respeito às diversidades (século 21, né, gente?), parecemos medievais das redes sociais. Gritaria, ofensas, acusações, alarmismos. Todo mundo falando e ninguém se ouvindo.

E viva o patrulhamento! De todos os tipos, do ideológico ao comportamental. Todo mundo com aquela velha opinião formada sobre tudo e “cuidando” da vida do semelhante. Até em museu. E pra isso vale tudo. A moda agora é o patrulhamento retroativo. É só pesquisar na rede social do alvo da ira e dar o veredicto do qual não cabe recurso a nenhuma outra instância. É isso e pronto. E nem adianta argumentar porque ninguém vai ouvir.

Não bastassem esses “tribunais”, ainda chegam aos montes mensagens de pessoas que até com certa ingenuidade acreditam em gente mal-intencionada, que dissemina as chamadas “fake news”. Sempre com o alarme tocando sem parar. É o fim do mundo sendo decretado a cada compartilhamento em proporções “épicas”.

Mas em parte esse fim do mundo diário faz algum sentido. O mundo acaba todos os dias quando uma criança passa fome, é vítima de uma guerra ou morre inocentemente em uma creche. Ou quando um representante do povo rouba o povo e sai por aí, vagando e andando.

Sim, o jornalismo também dá a sua contribuição para esse dia a dia do fim do mundo. E é um fim do mundo com a violência banalizada e sem a emoção de um asteroide em rota de colisão com a Terra. Um Armageddon diário, mas sem o Bruce Willis pra salvar o planeta e o Aerosmith cantando I Don’t Want To Miss A Thing.

Tá, então vamos deixar o mundo acabar todos os dias numa boa, sem fazer nada pra mudar isso? A boa notícia é que o mundo acaba todo dia, mas também começa todo dia. O “meu” se renova quando olho nos olhos da menina e do menino que são minhas versões melhoradas. E quando ouço o que eles têm a dizer. Bruce Willis, sai dessa, cara! A salvação está em cada um de nós.