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O feijão, o tomate e a próstata

Haisem Abaki

14 Setembro 2013 | 10h08

Esta semana, exatamente seis anos depois da perda, me veio uma forte lembrança do meu pai, o sírio Mohamed. Fiquei contraditoriamente “feliz” por ele não estar aqui para ver o que estão fazendo com a terra dele. Imaginei que diria que nenhum dos lados tem razão, faria muitas orações e contaria histórias bem fundamentadas sobre as origens do conflito.
Mas desta vez a cabeça e o coração, inexplicavelmente, não se deixaram tomar pela tristeza da ausência. Nem pela preocupação com os parentes que estão lá. A memória me levou para uma cena engraçada, na mesa da cozinha do nosso apartamento, no começo dos anos setenta.
Eu tinha seis ou sete anos. Só nós dois estávamos almoçando e eu, muito birrento, me recusava mais uma vez a colocar feijão no prato. Dizia que não gostava e pronto. Mas naquele dia o cara que fazia o melhor quibe cru do mundo estava nervoso por algum motivo e nem tentou me convencer com bom humor, como sempre, de que aquele negócio marrom era bom para a saúde.
Ele levantou a voz, despejou uma concha de feijão no prato e disse um “sâd búzac”, uma espécie de “cala a boca” em árabe. Era pra comer e ficar quieto. Ainda tentei resmungar alguma coisa, mas o olhar firme dele me fez “afinar” na hora. Bem, mais ou menos… O chato aqui deixou os talheres de lado e começou a comer feijão com a mão. Mão, não. Polegar e indicador. Só feijão e nada mais. Um a um.
Meu pai ficou ainda mais bravo e apontou para o restante do prato, dizendo que era pra eu comer tudo. Continuei ali, só no feijão, até o sírio, que na época todo mundo chamava de “turco”, encher a colher de arroz e enfiar na minha boca. E foi assim que fiz uma grande descoberta: feijão é “bããããão” demais. O homem era sempre brincalhão, mas naquele dia me pegou de jeito.
Minha filha e meu filho nunca tiveram problemas com o feijão. A birra deles sempre foi com o tomate. Justo o tomate, coitado, que eu tanto adoro desde criança! Um dia, a menina estava com aquela chatice que não sei de quem puxou e não queria comer tomate. O moleque ainda era novinho, só na papinha.
Mas meu argumento foi muito convincente. “Come que faz bem pra próstata”. Ela perguntou o que era a tal da próstata e achou graça quando viu a mãe rindo muito. Comeu e gostou.
Uns tempos depois, já era a vez do garoto fazer cara feia para o tomate. Mandei ver de novo a mesma frase, mas a irmã dele, na “melhor hora”, entornou o meu molho. “Pai, lembra quando você inventou que eu tinha próstata pra me fazer comer tomate?”.
“Ah, então você tá me enganando…”, soltou o garoto, na lata. Hoje ele já sabe que tem próstata, mas prefere o consumo “em forma de ketchup”. Meu pai deve estar rindo lá no céu, me vendo pisar no tomate. Ainda vou vencer essa batalha, com a persistência daquele moleque que comia feijão por feijão.
Pensei nisso depois de nos entupirmos de ketchup no cachorro quente. Ketchup também é “bããããão” demais, eu reconheço. Até a próstata da minha menina ficou feliz. Eu vi…