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O (ex) exterminador de guarda-chuvas

Haisem Abaki

31 Maio 2013 | 18h18

Já vou deixar bem claro: o cara aí do título sou eu mesmo. E tem mais, sem meias palavras: cometi a mais recente atrocidade nesta semana. Foi com a ajuda do vento, mas não fiquei com a consciência pesada, apesar dos pingos na cabeça. Seria morbidez da minha parte?
O coitado já secou do último banho que tomou. Durante o processo, permaneceu exposto com uma parte virada para baixo e outra para cima, quase uma obra de arte vanguardista, à espera de um fim que pelo menos será digno.
Na rua, vi vários olhares. Alguns de espanto, outros de pura gozação. Reagi com a veemência de sempre, aquela de quem nunca leva desaforo para casa. Fingi que não era comigo e segui em frente, carregando minha instalação artística, com varetas desmilinguidas.
Um camelô, insensível à minha apresentação performática gratuita, exibiu um modelo zero bala e trovejou um singular “15 real, chefia” no meu ouvido. Apesar de molhado, respondi secamente: “Esse aqui é de estimação e não está à venda”.
Puro sarcasmo, eu reconheço, já que nunca gostei de guarda-chuva. Na infância, uma das cenas mais comuns era levar bronca em casa, ao chegar ensopado e com o guarda-chuva fechado. Perdi e tratei com desleixo todos que ganhei “de presente”. Presentaço…
Seria um transtorno obsessivo climático? Estaria precisando de um “tratamento” para aceitar a existência do apetrecho? Talvez o fato de eu também detestar capas de chuva, bonés, chapéus, toucas e blusas com capuz seja uma pista para que especialistas encontrem a “cura”.
Não faço por mal. Só não quero essas coisas na minha cabeça. Quando era criança, até que gostava um pouco daquele bicho esquisito, mas nunca debaixo de chuva. Ficava abrindo e fechando os guarda-chuvas que meu pai vendia na loja. Outra “brincadeira” era usá-los como bengala. Também fazia isso quando íamos à indústria onde ele encomendava a mercadoria. Eu ficava impaciente com a demora na compra, a negociação do preço, a burocracia da nota fiscal…
E aí, tanto tempo depois, numa conversinha de esperar chuva passar, fico sabendo que duas mãozinhas delicadas costuravam guarda-chuvas para a fábrica na época dos “deliciosos passeios” que eu fazia lá.
A dona das mãos macias tem olhos brilhantes, sorriso contagiante, voz suave e já me suportou em muitas chuvas e trovoadas. Ela pede pra eu cuidar melhor do meu próximo guarda-chuva. É claro que sim. Adoooro guarda-chuva. Sempre gostei, sempre. Descobri isso agora, mas é amor de infância.