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O doce gosto da decepção

Haisem Abaki

08 Setembro 2017 | 08h00

Era para ser uma comprinha rápida no supermercado, que fecharia em meia hora. Apenas nove itens na lista. Dez se eu passasse “sem querer” pelo corredor das balas de goma. Naquele lugar o acaso nunca me protege quando estou “distraído”. Indo pegar o café, tive a impressão de ver alguém conhecido duas “ruas” abaixo, em sentido contrário. Foi tudo muito rápido e, apesar de toda a iluminação, me pareceu um vulto.

Na volta, já no caminho para o caixa, dei de cara com um velho amigo. Era ele o “vulto” de carne e osso. Um sujeito simples, calmo e muito querido. O tipo de pessoa que faz bem num ambiente de trabalho cheio de pessoas compenetradas e competitivas. Aperto de mão seria muito pouco. Então, foi necessário um abraço mais longo, seguido da batida expressão “quanto tempo!” dos dois lados. Não chegamos a uma conclusão exata.

Mas a conversa nos trouxe a referência de uma data redonda: os dez anos da morte de meu pai. Vieram algumas lembranças daquele período de sofrimento e comoção, mas logo meu amigo (ainda bem) mudou o tema para os nossos filhos que cresceram. Faculdades e profissões entraram no papo e nós dois demonstramos alegria pelas escolhas de nossas eternas crianças.

Fomos os últimos a sair do supermercado, já fechado. Trocamos números de telefone, ficamos de combinar alguma coisa e cada um seguiu o seu caminho. No meu, na volta para casa com sacolas na mão, apesar da pequena distância, houve tempo suficiente para uma longa reflexão. Foi a partir do meu luto, que demorou muito pra passar e hoje virou uma boa saudade no lugar de uma dor intensa. Houve quem me criticasse pelo luto prolongado e pela demora em buscar ajuda. Mas aprendi que essa palavra só deveria ser entendida no plural. Na verdade, são vários lutos e cada um vive o seu e reage de um jeito diferente. Não dá pra cobrar ninguém. Nem pela falta nem pelo excesso de luto.

Só que aqueles poucos passos até minha casa me fizeram perceber que não é só a morte física que causa luto. Aquele meu amigo mesmo, eu não via há vários anos. E tem um monte de gente que passa pela nossa existência e “some” no mundo. Você até sabe ou imagina que a pessoa está viva, mas ela não faz mais parte do seu dia a dia. Pode até vê-la numa rede social, mas as vidas se descruzaram. Não deixa de ser uma espécie de “morte”. Eu mesmo já “morri” pra um bocado de gente.

Esse tipo de morte pode acontecer por vários motivos. Mudanças de escola, de trabalho, de casa, de cidade, de país. Descobertas de novos interesses, de novas turmas, de novas experiências. Até por causa de um amor. Ou de um desamor. Claro que um sentimento verdadeiro pode sobreviver seja qual for a distância. Mas o nosso lado humano também é capaz de promover desumanidades, erros e egoísmos. E fui ali, caminhando e me lembrando de pessoas vivas que saíram da minha vida. E de como eu também saí da vida delas.

Algumas dessas “mortes” podem ser colocadas na minha conta. Talvez por confiar demais. Ou por exigir demais. Ou por ser chato demais. Ou por ser “certinho” demais. Ou por ter me transformado em um cara seletivo demais e não ter paciência demais com quem sempre se diz vítima demais e culpa demais o outro por tudo. Quando a palavra demais aparece demais, traz com ela expectativas exageradas. Mas a decepção de se enganar com alguém também é demais. Demais porque pode ser uma “morte” libertadora, uma ponte para a vida.

Cheguei, abri a porta de casa, guardei as compras e me senti em paz e sem culpa. A não ser por uma grande decepção comigo mesmo. Como fui me esquecer das balas de goma? A vida após a “morte” ainda pode ser doce demais…