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O cheque em xeque

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h14

Publicado pela 1a vez em 08/02/2008 10:00:00
Celso Miranda é um dos mais competentes – e engraçados – jornalistas que conheço. É um especialista em velocidade e esportes a motor. Também está antenado nos acontecimentos “deste país” e, de quebra, ainda tem muito bom humor no trato com os colegas.
Não nos encontramos com muita frequência, mas sempre nos vemos nos sábados em que estou de plantão, mesmo dia do Pole Position, programa semanal que ele apresenta na Rádio Bandeirantes. Foi assim no último sábado de Carnaval. Encerrei a apresentação do jornal e ele assumiu o microfone. O programa seguia no bom ritmo de sempre, quando fui fazer um lanche.
Na volta, vi um Celso Miranda indignado, já na Redação, após o final do Pole. Não sei por qual motivo, mas ele saiu do estúdio fazendo gracinhas sobre cheques sem fundos. Não eram bem piadas, mas aqueles nomes dados a esses pedacinhos de papel cada vez menos usados.
A surpresa do Celso era justamente por ter feito essa descoberta. Numa Redação que mistura gerações, o pessoal dos “anos vinte” não entendeu nada. Ele olhou ao redor buscando apoio em algum “anos quarenta” e logo se dirigiu a mim e ao Ronald Mendo, da Rádio SulAmérica Trânsito. Encontrou solidariedade e a lembrança de mais alguns sinônimos. No final, a constatação: na era dos cartões de débito e de crédito, a moçada não dá muita bola para o cheque e muito menos pra piada de cheque. Encerramos a conversa antes que se instalasse um ar de nostalgia entre nós. O Celso foi embora e eu e o Ronald seguimos com o nosso plantão. Logo me veio à memória a música “Ouro de Tolo”, do Raul Seixas. Então, percebi que, tirando o Ronald, ninguém mais ali saberia o que foi “um Corcel 73”.
Na volta para casa, pra passar o tempo, comecei sem querer uma espécie de desagravo ao Celso Miranda. Quando me dei conta, estava “atualizando” os títulos dos cheques sem fundos para a era do dinheiro de plástico, uma tentação para muita gente que passa o cartão e depois vê a conta estourar.
Cartão-boi – você vê a fatura ou o extrato algum tempo depois e diz: “Hmmmmmm!”. É também a reação do contribuinte ao descobrir os gastos no cartão corporativo de certos ministros.
Cartão-peixe – aquele que bate na conta e nada. Também usado por ministros que passam o cartão corporativo e, quando questionados sobre o que aconteceu, respondem: “Nada!”.
Cartão-calção de índio – sem fundos, assim como as explicações de certas autoridades para os gastos no cartão corporativo.
Cartão-mendigo – está sempre descoberto, assim como o cidadão que paga tapioca, chopp, churrasco, free shop e mesa de sinuca para detentores de cartões corporativos do governo.
Cartão-atleta – a pessoa passa e enfrenta uma maratona para cobrir. Se for algum ministro, ele sai correndo para encontrar uma boa desculpa.
Cartão-bailarino – você vê a fatura ou o extrato e dança. Se o cartão for um corporativo do governo, quem dança é o contribuinte.
Cartão-bom filho – você passa descoberto e a conta sempre volta para casa.
Cartão-boemia – você paga sem ter saldo, estoura o limite e a conta diz: “Aqui me tens de regresso!”.
Cartão-bumerangue – outro que é passado sem a cobertura suficiente e volta pra você pagar.
Cartão-procissão – sai, dá a volta na praça e retorna para a Matriz (no caso a fatura ou o extrato da conta que estourou).
Cartão-check-up – tem uma péssima saúde financeira.
Cartão-coruja – só funciona à noite, em bares, restaurantes e baladas. De dia não vale nada.
Cartão-cowboy – você saca, mas corre o risco de levar um tiro nas suas contas.
Cartão-pombo – bate asas na praça, mas a conta estoura e volta para o mesmo lugar.
Tamanho exercício me deu fome. Parei no caminho e pedi um lanche. Ao abrir a carteira pra pegar o cartão, vi que não tinha uma folhinha de cheque sequer. É o xeque-mate do cheque, meu caro Celso!

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