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Nunca é tarde para estourar

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h54

Publicado pela 1ª vez em 08/08/2008
Depois de conviver com uma enorme frustração por quase quatro décadas, posso finalmente dizer que consegui superar uma limitação que me atormentava.
Não foi fácil chegar até aqui. Foi necessário ter muita perseverança para seguir em frente e tentar de novo, de novo e de novo a cada fracasso, a cada sensação de total despreparo, a cada vez que tive vontade de jogar tudo para o alto e desistir para sempre.
Apesar desse problema, não tenho do que reclamar. Sempre tive ao meu lado pessoas que tentavam me ajudar e até fazer por mim aquilo que eu, por absoluta incompetência ou falta de vocação, não conseguia realizar sozinho.
Mas não era a mesma coisa, mesmo com todo o carinho e dedicação de gente tão querida. Eu agradecia, mas a cada vez que fazia isso me sentia incapaz de chegar lá por meus próprios méritos, sem depender da boa vontade dos outros, ainda que nunca tenham me cobrado isso ou esfregado na minha cara a sucessão de fiascos a que me submetia em razão de uma desmedida teimosia que até hoje não controlei totalmente.
Nesses anos todos, vivi fases de altos e baixos. Não foram poucas as vezes em que me enchi de razão e ataquei a mim mesmo como se fosse outra pessoa:
– Não é possível que você seja tão incompetente, tão mole. Você não serve pra nada mesmo!
Em momentos melhores, minha voz interna procurava me confortar e mostrar que não era o fim do mundo:
– Que é isso, cara? Você precisa se valorizar mais! Você não sabe fazer isso, mas é bom em outras coisas! Ninguém é perfeito!
A vida foi passando, nasceram espinhas, as primeiras penugens, virei adolescente, depois adulto, estudei muito, trabalhei mais ainda, me diverti bastante, fiz novas amizades, encontrei o amor verdadeiro, vieram os filhos…
Os momentos de frustração foram diminuindo cada vez mais e às vezes a lembrança do meu antigo problema nem voltava mais. Era como se nunca houvesse existido. De vez em quando eu tinha recaídas, tentava de novo e não conseguia. Mas o fracasso já não me atormentava tanto. Cheguei até a me conformar e contar com a ajuda da tecnologia, sem me achar a pior pessoa do mundo por causa disso.
Não sei exatamente como foi a transformação, mas um dia percebi que já aceitava essa limitação e até passei a achar graça dela. Foi o primeiro passo para a “cura”. O segundo e definitivo aconteceu quase sem querer. Eu, que só confidenciava o problema às pessoas mais próximas, acabei revelando tudo aos ouvintes da Rádio Bandeirantes.
Formou-se uma verdadeira corrente de solidariedade. Foi uma chuva de e-mails indicando, passo a passo, o que eu deveria fazer. Eram todas mensagens muito doces, que me deram novo ânimo para tentar. De papel na mão, me preparei pegando tudo o que precisava, respirei fundo, me concentrei e, finalmente cheguei lá. Hoje posso dizer pra todo mundo ouvir:
– Eu consigo fazer pipoca doce!
Agradeço a todos que me ajudaram nessa conquista. Já fiz duas vezes e na segunda nem usei a receita. Não preciso mais de microondas porque tenho capacidade de fazer com as minhas próprias mãos. Eu sou um estouro!
…………..

Há dias tenho me preparado para viver uma nova experiência: o primeiro Dia dos Pais sem meu pai. A tristeza vem e vai, mas ainda não conseguiu me dominar porque as boas lembranças não deixam. Ele me ensinou a ser sério e, ao mesmo tempo, ter alegria de viver. É a herança que recebi e quero deixar para os meus filhos. Não vou pipocar!
Feliz Dia dos Pais!

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