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Notícias de cabeça para baixo

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h09

Publicado pela 1ª vez em 02/11/2008
Por força da profissão, respiro e transpiro notícias o dia inteiro. Às vezes tento me desligar porque sei que tudo que é exagerado faz mal, mas nem sempre consigo, ainda mais hoje, que as notícias estão por todo lado, sempre nos tomando de assalto.
De uma certa forma, também sei que contribuo para isso. Às vezes, penso que algumas notícias mereceriam alertas do tipo “Aprecie com moderação” ou “Se persistirem os sintomas, um médico deverá ser consultado”.
Calma, gente. É só uma reflexão. Não quero dar idéias luminosas aos patrulheiros de plantão que de vez em sempre mostram as garras a pretexto de pregar posturas politicamente corretas. O grande mal dessa “corrente de pensamento” está justamente na primeira dessas duas palavras: “politicamente”. Para mim, só é possível ser “correto” ou “incorreto”. O resto é agir de acordo com as conveniências de cada um ou de cada momento.
Nos últimos dias, três notícias me chamaram a atenção. A primeira foi quando “caiu a ficha” do ministro da Fazenda. Depois de dizer que o Brasil estava bem preparado para a crise financeira e de afirmar que o governo não precisaria baixar pacotes, ele finalmente reconheceu que a crise terá longa duração e que o país será atingido. Depois, voltou a amenizar a situação, alegando que não teremos recessão. Pensei naquelas bulas de remédio. Tem gente que só lê o item “Posologia”. Claro que é essencial saber a dosagem certa, mas acho que as informações mais importantes estão em “Reações Adversas” e em “Interações Medicamentosas”. Lá, você realmente vê que o remédio é uma droga.
Outro fato importante da semana foi a decisão do Supremo Tribunal Federal contrária ao recurso da videoconferência, já usado em alguns processos em São Paulo. Entidades ligadas ao Direito alegam que a prática fere o direito de defesa do acusado ao colocá-lo preso dentro de um monitor sem aquela segura saidinha para ver o juiz de perto. Eu, que procuro ser um sujeito direito, não entendi direito, apesar de reconhecer que, do ponto de vista frio da lei, o questionamento está correto.
Não vou entrar nesse mérito de data venia para lá e data venia para cá, mas como já trabalhei na área e “quase” fiz Direito sei de duas historinhas que servem de exemplo para os dias de hoje. Em 1929, um tribunal mineiro anulou uma sentença porque o texto não havia sido escrito “de próprio punho” pelo juiz. Era uma decisão datilografada! A alegação era que a perigosíssima máquina de escrever feria o princípio básico do sigilo antes da publicação da sentença.
No final dos anos 80, alguns tribunais também anularam sentenças redigidas num equipamento ainda mais perigoso, um tal de microcomputador. A nova máquina sentou no banco dos réus, sem direito a defesa, e foi condenada porque poderia permitir a reprodução de sentenças em série, sem que o juiz analisasse as particularidades de cada processo. Bebam com moderação, senhores! Só fico tranquilo porque acredito que, como ocorreu nos dois pileques citados anteriormente, o porre vai passar.
A última e mais nova notícia é sobre a eleição presidencial americana. “Provável vitória de Obama faz disparar a venda de armas nos EUA”. Disparar? Jornalistas adoram trocadilhos infames e eu não sou diferente. A reportagem conta que começou uma corrida às lojas por causa do temor de que Barack Obama restrinja a venda dos adorados brinquedinhos. E não adiantou nada ele dizer que apóia a Segunda Emenda à Constituição, que autoriza os americanos a terem armas.
Do outro lado, John McCain, já quase sem bala na agulha e percebendo que o eleitor está prestes a “desembushar” nas urnas, apela para o governador-exterminador Arnold Schwarzenegger, com o público aos gritos de “Hasta la vista, Obama”. Senhores, por favor, atirem com moderação!
Que as notícias da semana que vem sejam mais animadoras. Em todo caso, cuidado com a auto-medicação e se for dirigir, não beba! Aceite meus conselhos “politicamente” corretos.

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