As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Nem tudo é lixo

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h13

Publicado pela 1ª vez em 22/11/2008
Meu filho é fascinado pelo som que sai do caminhão de lixo. Toda vez que ouve o barulho que vem da rua, corre para a sacada e fica observando o trabalho dos lixeiros. Um dia repeti a ele uma frase que ouvia de meu pai quando era criança e ficava parado na porta de casa, vendo o lixo ir embora:
– Ninguém dá valor aos lixeiros, mas eles merecem muito respeito. Você já pensou o que seria do mundo se ninguém quisesse ser lixeiro?
Ele arregalou os olhos e levantou as sobrancelhas, parecendo entender o que eu havia dito. Dizem que também faço isso de vez em quando.
Outro dia, ao chegar em casa, vi meu garoto e minha garota brincando com um novo joguinho, chamado “Cidade Limpa”. O formato não é tão novo assim. É mais um daqueles jogos de tabuleiro em que os competidores lançam um dado e andam o número correspondente de casas até a chegada ao destino final. As peças que se movem são caminhões que coletam o lixo da cidade e o encaminham para a reciclagem. Tudo muito educativo.
Fiquei observando a diversão dos dois até que meu lixeirinho de cinco anos me perguntou se eu queria brincar. Estava cansado, mas pedi que ele me explicasse como jogar. Ouvi atentamente e devo ter arregalado os olhos e levantado as sobrancelhas. Não entendi nada e pedi um tempo para tomar banho e ler as regras mais tarde.
Como é boa a memória das crianças! Voltei para a sala e lá estava ele com o folheto das regras do jogo. Achei as letras pequenas, mas fui em frente. Era por uma boa causa.
Além dos caminhões, do dado e do tabuleiro onde estão as ruas e as casas da cidade, há 32 lixos, que são fichas cartonadas ilustradas. Há ainda 16 cestos de lixo reciclável em quatro cores: vermelho (para plástico), amarelo (para metal), azul (para papel) e verde (para vidro).
Até aí, me pareceu moleza. Mas a vida de lixeiro é dura mesmo. Achei que já sabia de tudo, vi meu caminhão ficar para trás e fui repreendido pelo “lixeirinho-chefe”, que disse que eu não estava entendendo nada.
Fui ler outra parte das regras que não tinha visto por me achar um sabichão. Meus neurônios foram revirados, compactados e aterrados. O texto dizia que o limite máximo de carga de cada caminhão era de três fichas de lixos, mas para evitar contaminação entre materiais, não poderia transportar mais que dois tipos de lixo ao mesmo tempo. Ganha o jogo quem consegue coletar os oito lixos – dois de cada tipo – e colocá-los nos cestos corretos, em seu depósito reciclável. Preciso dizer quem venceu?
Mas o pior ainda estava por vir. Peguei o folheto de novo para reler as recomendações e bati o olho numa informação que não tinha visto ainda: “Número de Jogadores: 2 a 4. Idade: a partir dos 05 anos”. Percebi que precisava com urgência de uma reciclagem. Devo ter arregalado os olhos e levantado as sobrancelhas. O lixeirinho me chamou para uma nova coleta, mas disse a ele que antes eu precisava contar essa história no meu blog:
– Me dá esse folhetinho aí com as regras do jogo. Preciso copiar.
Pronto, contei e assumi a minha total falta de “cesto” sentido! Que trocadilho infame! Vou jogá-lo no recipiente reservado ao papelão e correr atrás do caminhão do meu lixeirinho de idade mínima para coletar mais ensinamentos.
…………………………………………………………………………………………………………
Gostaria de repetir neste espaço o que já disse ao meu amigo e companheiro José Nello Marques. Tenho 22 anos de profissão e em mais da metade deles trabalhei ao lado do Zé, primeiro na CBN e depois na Bandeirantes. Foi um grande prazer e um grande aprendizado que, hoje me dou conta, tiveram início quando eu estava do outro lado, como ouvinte. Em minha vida de repórter, antes de virar apresentador, sempre me senti valorizado pelo Zé em todos os momentos em que ele me chamava no ar. Minha admiração e minha gratidão permanecem intactos, mas não me cabe comentar sua saída da Rádio Bandeirantes, um assunto específico que diz respeito somente à empresa e a ele. Trata-se de um momento novo para mim e fiquei feliz ao receber o apoio do Zé para seguir em frente. Também tenho recebido o carinho de muitos ouvintes e a eles sou grato. Da mesma forma, sou grato aos críticos porque percebo em todos um ponto em comum comigo: o amor pelo Rádio. Por isso, tenho respondido a todos os e-mails que chegam ao meu conhecimento. Entendo perfeitamente as razões de cada ouvinte que se manifesta, agradeço pela atenção e espero continuar merecendo no Manhã Bandeirantes a audiência alcançada em oito anos no Jornal Primeira Hora, que continuo a apresentar. De minha parte, vou tentar substituir com dignidade um companheiro de tanto tempo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: