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Natal muçulmano? Sim!

Haisem Abaki

24 Dezembro 2018 | 11h58

Hoje é dia daquele período anual e repetitivo sobre o qual já falei e escrevi um montão de vezes que daria pra encher o saco do Papai Noel. De presentes, é claro! Todo mundo me deseja “Feliz Natal” e eu agradeço e retribuo, mas sempre aparece alguém mais curioso que pergunta se eu celebro a data. Desta vez, surgiu alguém com uma variação, querendo saber como é o Natal na casa de uma família muçulmana.

É óbvio que eu não falo como representante de quem segue o Islamismo. Até porque o meu jeito de “seguidor” é bem diferente e incompreendido por quem acha que religião é apenas frequentar a mesquita ou a igreja, seja qual for a fé.

Sou apenas o representante de mim mesmo, do que aprendi com meu pai e do que tento transmitir aos meus filhos. Seu Mohamed era um muçulmano de ações práticas, que não ficava só nas teorias, suratas (capítulos) do Corão, cânticos, mantras, banhos de purificação e genuflexões nos momentos das orações.

A religiosidade dele estava no dia a dia, nos pequenos gestos, no bom papo e no sorriso pra todo mundo. Como no dia em que cheguei e vi em casa algumas pessoas que não conhecia. Eram Testemunhas de Jeová. Três fiéís que haviam tocado a campainha para entregar folhetos e fazer uma pregação. Foram convidados a entrar e o semblante deles demonstrava que estavam impressionados com o sírio chamado de “turco”, que ouviu tudo e falou sobre a religião dele.

Foram embora felizes e ele ficou feliz também, prolongando em mais um diálogo comigo a aula de respeito, tolerância e verdadeiro espírito muçulmano, cristão ou de qualquer outra crença porque a essência, independentemente da religião, estava ali, em cada palavra com sotaque, no olhar fixo e sereno e no sorriso contagiante. Ele sempre encaixava uma piada pra ilustrar a fala e o interlocutor nem percebia que se tratava de uma espécie de sermão.

E era assim que ele, com naturalidade, celebrava o Natal, queria ver a árvore montada, os presentes em torno dela e até olhava no relógio pra dizer que faltava pouco para o Papai Noel chegar. Ele nunca ligou para algumas cobranças de irmãos de fé que questionavam aquela comemoração. Com o tempo, o pessoal da “Santa Inquisição Muçulmana” foi perdendo a audácia de bater de frente com ele.

O cara tinha o nome do profeta da religião, sabia perfeitamente das diferenças dogmáticas entre as crenças, mas se apegava nas concordâncias e tratava das divergências com sutileza e simpatia, sem querer impor “a verdade absoluta” na qual acreditava, aceitando “outras verdades absolutas”.

Mas a maior lição que recebi do muçulmano natalino foi que “o Natal é uma criança”. Uma lição que foi reforçada quando vieram a neta e o neto, que renovaram nele ainda mais a vontade de celebrar o Natal. E lá vinham as caixas de bombons de presente pra todo mundo…

Os netos eram os amores preferidos, sim. Mas o sírio demonstrava carinho com toda e qualquer criança que entrasse na casa dele ou que cruzasse o seu caminho. Uma vez ele me disse que se pudesse daria bombons para todas. Dizia, simplesmente, que a chegada de qualquer criança em uma casa significava a entrada de uma luz.

Ele gostava de ver a bagunça da criançada, sem pedir para que ficassem quietas ou que se comportassem. E assim deu novos “nomes” aos meus filhos. A neta era a “harbuche” (bagunceirinha em árabe) e o neto era o “harbuch” (bagunceirinho em árabe).

Herdei dele a vontade de presentear as pessoas com bombons, que passei a praticar em cada Natal depois que ele se foi. E o jeito de chamar os netos. Ah, a disposição de abrir as portas de casa e do coração para a luz entrar também. Porque o Natal é uma criança. O resto, a cada Natal muçulmano (sim!),vou tentando aprender. Crianças, por favor, me ensinem!