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Música para os meus ouvidos

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h42

Publicado pela 1ª vez em 17/09/2010
O tempo passa e meu ouvido esquerdo já não é mais o mesmo. Depois de 24 anos de rádio, dos quais sete voando diariamente de helicóptero, isso é até normal. Um exame já havia indicado uma leve perda na audição há uns 10 anos e não dei mais ouvidos ao assunto.
Há dois meses, quando subi e desci as montanhas da Síria várias vezes, senti o entupimento do “escutador”. De volta ao Brasil, o médico pediu novos exames. Fui fazer e saí um pouco mais preocupado quando a fonoaudióloga disse que a perda auditiva havia aumentado, apesar de ainda ser discreta.
No meu caso, além do rádio, há a hereditariedade do meu pai. Mas na hora o pensamento que tive foi que estava ficando velho mesmo. Liguei o rádio do carro para buscar algum conforto e ele veio na hora. Lorrie Morgan e os Beach Boys me afagaram cantando “Don’t Worry Baby”. Então, resolvi não me preocupar.
Não demorou muito e aquele pensamento insistiu em me atormentar. “Você tá ficando véio, cara!”. A frase ficava martelando num misto de bom humor e triste e inevitável constatação. Como sempre faço nessas horas, apertei o botão do rádio aleatoriamente. Fui contemplado pela banda Alphaville com “Forever Young”. Achei que era um bom sinal, mesmo sabendo que ouço essa música desde o tempo em que era novinho, novinho.
As palavras da fonoaudióloga voltaram à minha cabeça, desta vez com mais suavidade e só aí me dei conta de que ela foi muito simpática e gentil. Falou bem de mansinho e também era… bonita!
Na hora, achei melhor omitir essa parte ao escrever a história para não ter que “ouvir” lá em casa. Bom, agora todo mundo já viu que desisti de refugar e resolvi ficar “na escuta” para uma bronca. Pensei no meu amor me esperando e tasquei o dedo no rádio outra vez. Fui salvo de novo. Era o Phil Collins mandando um recado com “You’ll Be In My Heart”.
Talvez muita gente não acredite nessa sequência musical cheia de coincidências, mas é tudo verdade. O rádio pode ter me tirado um pouquinho da escuta “zero bala”, mas está sempre me socorrendo.
Depois, retornei ao médico e ele confirmou tudo o que a fonoaudióloga havia dito. Fui tranqüilizado por um sujeito simpático, gentil, falando mansinho e… só isso mesmo, só isso. Na saída, já no carro, achei melhor não arriscar. Nada de trilha musical, ouviu bem?

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