As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Morte matada ou morrida?

Haisem Abaki

15 de abril de 2016 | 12h06

Começando pelo óbvio: todo velório tem tristeza, choro, lamento, inconformismo, saudade. Mas, dependendo da situação, também há aqueles que aceitam a perda, que acham que acabou o sofrimento e que foi melhor assim. E os fanfarrões, piadistas e espirituosos sempre estão presentes para descontrair o ambiente em rodinhas de bate-papo, às vezes sem maldade, com lembranças do finado. E tem a turma do café, do cigarro e dos assuntos paralelos.

A grande discussão do momento é se foi morte matada ou morrida. Chega um e diz que foi um golpe porque o governo ainda teria quase três anos de vida. E os assassinos são os empresários, a mídia, o juiz, os vazamentos seletivos e a classe média de coxinhas.

Vem outro e acusa o governo falecido de ser o responsável pela própria morte, de não ter se cuidado, de cometer exageros, de fazer o mal fingindo que era o bem, de ser enganador e manipulador, de ter virado as costas a quem só queria ajudá-lo pelo bem da Pátria.

Enfim, a pretensa profundidade do debate se apresenta em argumentos defendidos com veemência, gestos efusivos, dramaticidade e gritos de parlamentares que parecem estar disputando uma gincana escolar. Mesmo que, por milagre, haja uma sobrevida, todos já perceberam que a morte está decretada e lutam apenas para colocar suas versões no atestado de óbito e na lápide.

Os indignados dos dois lados sabem que a vida segue e querem tirar proveito dela. Uns esfregam as mãos e já abrem o bocão para engolir ainda mais poder e outros vão se fantasiar com a máscara de vítimas pobres coitadas e dizer que o governo estará a cargo de um morto-vivo.

E para isso usarão todos os métodos “republicanos” disponíveis, como a “criatividade” de erguer muros e alambrados para separar coxinhas e mortadelas. Enquanto não forem derrubadas essas barreiras e as falsas pregações de líderes apocalípticos, a cidadania estará frita e embutida.

As ruas precisam estar vigilantes para todo o sempre, seja quem for o governante de plantão. Se acharem que está tudo bem e se calarem, aí sim, será morte matada e morrida ao mesmo tempo. Bem matada e bem morrida.

Tendências: