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Modernidade obsoleta

Haisem Abaki

29 de abril de 2016 | 12h06

Acabei de ter uma grande surpresa: um reencontro com um velho companheiro de tantas batalhas profissionais. Imaginei que nunca mais iria vê-lo. Na verdade, não imaginei nada, simplesmente porque não pensava mais nele. Confesso que achei que nem existisse mais, por mais frio que eu pareça ser ao fazer tal revelação.

Mas é nos momentos de dificuldade que a gente sabe quem é amigo, não é mesmo? E foi assim. Essa “retomada” só aconteceu por causa de um problema que tive com uma operadora de plano de saúde. Coisa aparentemente fácil de resolver, só que não. Precisava de autorização para realizar um exame “muito específico”, segundo o médico que está cuidando da minha vesícula dodói, mas que agora está bem comportada.

Por telefone, fui muito bem atendido e recebi um protocolo, o primeiro de uma série de uns 914. Deveria ter anotado todos os números pra jogar na loteria. Era só entrar no portal da empresa e enviar os documentos digitalizados. Moleza. E foi, até certo ponto. Depois de preencher o formulário e carregar a papelada escaneada (do “novo” verbo escanear e não sacanear), aparecia uma mensagem: “Os documentos não foram processados. Por favor, tente novamente mais tarde.”.

E tentei novamente mais tarde outras 914 vezes e nada. Como de costume em questões tecnológicas, achei que o problema era comigo ou com meu computador. Fui para a máquina do meu filho, um nativo da era digital e não um migrante nesse mundão, como eu. E nada. Fui a uma lan house e nada também.

Olha, estou até encurtando a história. E aí, depois de novos contatos com a operadora, fui orientado a “mandar um fax”. Hein? Não tem um e-mail? Não. Não posso entregar pessoalmente? Não. Correio? Não. Talvez pelo malote de um escritório da própria empresa? Não. Só fax? Só fax. Procurei em alguns locais como a própria lan house, papelarias e copiadoras. Em todos, senti um “de que planeta você veio?” nos olhares. Até que uma mocinha gentil, talvez com pena do alienígena, indicou uma banca de jornais numa esquina próxima. E não é que a dona tinha um fax! Só que estava quebrado.

Cheguei a ir a uma sucursal da operadora de plano de saúde e uma funcionária muito atenciosa disse que eles não tinham fax lá, ao contrário do que me havia informado o tal atendimento telefônico dos protocolos intermináveis. Mas ela se dispôs a enviar tudo digitalmente e encontrou a mesma resposta, dos documentos não processados. Falou com a central e disseram que iriam “abrir um chamado”. Resumindo, foram dois dias com o plano de saúde me operando.

Então, fui ao hospital buscar outro exame. Foi quando tive a brilhante ideia de perguntar se havia um fax ali. Sim. Sim? Sim! Só não havia autorização para uso por parte de um paciente. Hein? Então,  pedi para ver meu médico. Logo que entrei, já me olhou preocupado e quis saber se eu sentia dor. Não. Não? Não, doutor! Só preciso de um fax!!! Aí, ele chamou a funcionária para passar a distinta autorização.

E foi assim, num cantinho de uma recepção de hospital, que reencontrei meu velho companheiro fax, que tanto me ajudou a fazer Rádio lá no começo dos anos 90. Era o mesmo de sempre, quietão e emitindo aquele apito estridente. Quanta saudade! Falso! Enquanto duas recepcionistas faziam malabarismos e contorcionismos coordenados para enviar cinco folhinhas para a moderna operadora de plano de saúde, fiquei pensando nos sucessores daquele velho aparelhinho cansado de guerra. A vida melhorou muito nos últimos 20, 25 anos. Tudo ficou mais fax. Difix é o ser humano, sempre com respostas muito bem treinadas. Ah, faxça-me o favor!

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