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Minhas preferências paulistanas

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h11

Publicado pela 1a vez em 25/01/2008 10:00:00
Não sou um “paulistano da gema”, mas nos quase 17 anos em que trabalho em São Paulo criei uma relação de paixão com a cidade. Minhas primeiras lembranças são da infância, quando saía de Mogi das Cruzes com meus pais para visitar amigos e fazer compras “na capital”. Íamos de trem ou de ônibus e as nossas portas de entrada eram a estação Roosevelt e o Parque Dom Pedro.
Na adolescência, com novas amizades, descobri um pouco da agitação cultural e política da cidade grande. Nessa fase, as idas a São Paulo ainda estavam muito ligadas às minhas origens. Um dos programas mais comuns era participar com a minha mãe de atos pró-Palestina. Aos poucos, comecei a encarar a cidade sozinho, mas sempre de trem, ônibus ou metrô. No máximo, pegava uma carona quando ia ver os jogos do Palmeiras. O trânsito me assustava. “Eu nunca vou querer dirigir nessa cidade!”.
Virei “repórter aéreo” fixo em 1994, depois de alguns vôos esporádicos e dois anos de aulas de trânsito com o “professor”Jordão, meu motorista na CBN. Foram sete anos “orientando” (que audácia do caipira!) os motoristas de São Paulo. Primeiro, os ouvintes da CBN. Depois, os da Bandeirantes. Deixei a rotina da reportagem no ano 2000 e passei para o estúdio. Hoje, ando bem menos pela cidade que antes me assustava e que depois vi que também era aconchegante. Abusado, já me sinto até em condições de escolher dez lugares de São Paulo marcantes para mim.
Em décimo, está um local que eu nem imaginava onde era. Só ouvia falar no rádio, quando era criança. De repente, estava lá no meio do barulho de aviões e helicópteros, acumulando horas de vôo. É o Campo de Marte.
Em nono, escolho uma região de sotaques e aromas. De comida farta e muita agitação cultural. De gente simples e sonhadora. De músicas que respiram São Paulo. É o Bixiga.
Em oitavo lugar, fico com o contraste do símbolo do corre-corre e do poder que circula nas veias da metrópole. No começo, sentia um certo friozinho na barriga ao passar por ela, a avenida Paulista.
Em sétimo, um prédio imponente, que sempre via de longe. Parecia um cartão postal e não era feito para entrar lá. Só tomei coragem em janeiro de 2007 e fui ver a cidade lá do alto do Edifício Altino Arantes. Era como se estivesse no helicóptero de novo.
Em sexto, não muito longe dali, fica um lugar que me traz lembranças e depois virou pauta que um dia todo jornalista vai fazer. Quando era criança, eu passava por lá e me divertia traduzindo tudo o que ouvia em árabe. Hoje as línguas estão misturadas e é bem mais difícil andar sem esbarrar em alguém na multidão da rua 25 de Março.
Em quinto lugar, escolho a história escondida e ignorada na pressa de pegar o metrô, de fazer um lanche rápido na hora do almoço, de olhar para o relógio e ver que não há tempo de ter tempo. Ainda assim, gosto das ruas e calçadões do Centro Velho.
Minha quarta preferência é um lugar de muitas árvores encravado no meio da cidade. Lá, comi o melhor quebra-queixo da minha vida. Pena que foi na hora errada, momentos antes de uma entrada no ar ao vivo, mas não escondi isso dos ouvintes. Falei de boca cheia. Jornalistas adoram ir lá para fazer um povo-fala. É o Parque do Ibirapuera.
Em terceiro, fica uma área imensa, que visitei ainda criança e hoje atrai os meus filhos. A vontade de estar nesse pedaço de São Paulo passa de geração para geração. Quem não gosta do Zoológico?
A segunda preferência paulistana do meu coração é um lugar ao qual fui pela última vez há 12 anos. Estou ensaiando um retorno já faz tempo. Lá já vibrei muito, comemorei gols e xinguei juízes. Tenho saudades do estádio Palestra Itália.
Para terminar, a grande revelação. O lugar de São Paulo que mais gosto tem gente estressada, muito barulho, poluição, buzinas, sirenes, congestionamentos, camelôs vendendo tudo no meio do trânsito, um rio que não é mais rio. É a Marginal do Tietê, sentido Lapa-Penha. É o caminho para Mogi. Mas também gosto da pista do outro lado, que todos os dias me traz de volta. É o meu jeito esquisito de amar São Paulo, indo embora todo dia!

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