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Minhas descobertas paternas

Haisem Abaki

09 de agosto de 2013 | 20h46

O garoto chega da escola com os presentes que preparou pra mim. Já não sou mais pai de primeira viagem e deveria estar acostumado com esses mimos de agosto, que começaram com a irmã dele. Mas ainda me emociono como nos dois partos que “tive”.
Sim, passei firme e forte pelas dores e “meus” partos foram naturais. Nossos olhares assustados se cruzaram pela primeira vez no exato momento em que os dois nasceram. Coitada da menina, fui a primeira pessoa que ela viu. Coitado do menino, fui a primeira pessoa que ele viu também. A primeira de muitas descobertas, minhas e deles.
A mais nova foi diante dos presentes certamente feitos com carinho, mas com aquele jeitão de moleque. Num desenho, estou de camiseta verde, calça azul e tênis marrom. Minhas costeletas sumiram e a barba está feitinha, sem aquela preguiça que dura dois ou três dias.
A cabeleira ficou mais pra trás e meio rala, como se minha testa tivesse crescido. Meu pé esquerdo parece um pouco maior do que o direito. Enfim, sou eu mesmo naquela folha de papel. Parei, olhei bem e me descobri “exatamente” como sou.
O desenho vem cercado de palavras que descrevem minhas “qualidades”. Letra de menino, né? Nem sempre dá pra entender e por isso peço que ele leia em voz alta. Vinte e três referências!
Mas a timidez não me permite citar nenhuma aqui. Tá bom. Vou falar uma só. Vai… Duas. Além de “honesto”, “divertido”, “elegante”, “inteligente”, “trabalhador”, “maneiro”… Ah, sim… Já parei. Só duas, eu sei. O perna-de-pau aqui é “bom jogador” e “chuta forte”. Um craque acabava de ser descoberto!
E junto com tanto carinho, ingenuidade e sinceridade, recebo uma bela caneca branca, com dois carinhas desenhados. Eu e ele, com topete e gel, cabelão arrepiado, “exatamente” como somos. Definitivamente, me descobri ali. Euzinho em pessoa, com penteado de asterisco.
Só que aí reparei mais uma coisa. Aparecemos lado a lado, do mesmo jeito, com o mesmo visual, com as mesmas roupas, com os mesmos tênis… Mas não estamos de mãos dadas. Perguntei o motivo daquela “separação”, de “tamanha distância”. Ele respondeu com um “ah, esqueci”, mas tinha um sorriso maroto. Não chegou a ser uma descobeeeeerta. Ele ainda me beija, mas já percebi que ultimamente o moleque me cumprimenta com um “toca aqui”: tapa e soco na mão. A cada gol do Palestra é assim…
E nesse clima de Dia dos Pais veio a mais recente descoberta, um recado importantíssimo. “A professora de educação física disse que a gente já tá precisando usar desodorante”. A turma até havia conversado na escola sobre o tema tão perfumado. “É o não sei o que men”. Grande revelação, diretamente do sovaquinho. É inevitável. Uma hora esse assunto “pinga” nas nossas vidas. Bem-vindo ao clube do “tch, tch”, meu garoto!

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