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Minha lista de saudades natalinas

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h48

Publicado pela 1ª vez em 24/12/2010
Não sei se tive algum sonho, mas acordei na véspera deste Natal com saudades de gente que não posso mais ver nesta vida. Poderiam ser lembranças tristes de uma ausência, mas foram todas alegres da convivência com pessoas que se foram e que ainda sinto bem perto de mim.
Começo a lista com o “turco” Mohamed. Foi o muçulmano mais cristão que conheci. Ele não enxergava diferenças nas crenças, apenas semelhanças. Comemorava todos os anos quatro festas, duas de cada religião. Sabia e praticava o real significado do Natal e nos presenteava com bombons e uma gargalhada suave e gostosa. Saudades doces e recheadas de meu pai.
Um anjo chamado Hizar também tem lugar especial nessa lista. Viveu 18 anos, nunca andou, nunca falou, mas dizia tudo com os olhos sempre brilhantes e o sorriso docemente sincero, apesar de preso a uma cama. Tinha os cabelos angelicalmente encaracolados. Saudades puras e sem pecado de meu irmão.
A lista prossegue com seu Miguel e dona Tufeha, um casal de libaneses, meus protetores. Minha mãe demorou pra passar a tesoura nos meus cabelos e um dia, num passeio com seu Miguel, uma moça me chamou de “netinha linda”. Tinha cerca de dois anos e… Baixei a calça. Seu Miguel cobriu meu passarinho com o chapéu. Saudades infantis e cheias de molecagens dos meus avós postiços.
Dona Milca também entra na lista. Foi minha sogra, sim, não fiquem assustados, minha sogra! Ouvi dizer que ela era muito rígida e religiosa. Fiquei com receio, mas fui recebido de cara com um abraço e um beijo no pescoço. Ela sempre me fazia a mesma pergunta e depois da resposta me tascava um beijo no cangote de novo. Saudades da mulher que sempre queria ouvir porque eu gostava da filha dela.
A lista entra agora pelas ondas do rádio e chega a Antonio Carvalho. Era um vozeirão que ouvia desde criança. Nunca poderia imaginar que viraria amigo e conselheiro. No Natal, quando estávamos em plantões diferentes, falava comigo por telefone, sempre com uma mensagem positiva. Saudades da voz firme e grave de uma pessoa mansa e de paz.
Gostaria que a lista terminasse aqui, mas dois nomes entram pela primeira vez neste Natal. Conversei com Muíbo Cury na véspera do Natal do ano passado. Ligou para mim dois dias antes de partir e mesmo doente continuava afetuoso e sempre tinha palavras sinceras de carinho. Saudades dos beijos e abraços que ele me dava no meio da redação, sempre acompanhados de uma gargalhada marota depois de dizer que queria ser meu “estagiário”.
E o mais novo da lista, Lourival Pacheco, foi o dono de outra voz inconfundível da minha infância. Depois, virou amigo, confidente e “vítima” das minhas brincadeiras, perto e longe dos microfones. Como o Muíbo, também me dava muitos beijos e abraços. Saudades do homem que chorava de rir e reagia com um “Mas porrrrrrrrrrrra!” quando estávamos no ar e eu soltava uma bobagem qualquer.
Minha lista de saudades não me traz lembranças tristes, só alegres. Espero poder reencontrar todos um dia. Daqui a uns 40 anos, tá bom? Ainda quero viver mais para fazer tudo que me ensinaram. Eles podem esperar… Porque são eternos!
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Agradeço a todos os amigos ouvintes pelas demonstrações de carinho e pelo apoio neste ano. Foram presentes de Natal que chegaram bem mais cedo. Feliz Natal!

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