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Minha contagiante chatice

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h19

Publicada pela 1a vez em 07/03/2008 10:00:00
Minha mulher me deixou no salão do Antenor para ir buscar as crianças na escola. Ela ainda não se acostumou com minha aparência nos últimos seis meses e antes de descer do carro ouvi uma ordem, ainda que num tom de conformismo:
– Já que você não quer raspar essa barba, pelo menos dá uma aparada, seu chato!
A tarde estava tranqüila e logo fui atendido. A conversa, como sempre, foi animada:
– E aí, a sua mulher já aceitou essa barba?
– Ô, não tem jeito… Sou meio teimoso mesmo.
Não quis cortar o cabelo e rapidamente o serviço estava feito. Ainda tinha tempo e decidi ir a pé até a escola. Saí do salão do Antenor na rua Doutor Ricardo Vilela, no centro de Mogi. Fazia tempo que eu não andava a pé por aquele pedaço que marcou a minha infância. Virei à direita na rua Presidente Rodrigues Alves, andei dois quarteirões e cheguei à rua Navajas. Lá, dei de cara com um antigo casarão. Voltei no tempo e percebi que minha chatice e minha teimosia começaram cedo, por volta dos seis ou sete anos.
A mulher do casarão ficava parada na porta. Tinha uns 70 anos e sempre sorria e acenava para mim quando eu passava por lá com meu pai, a caminho de uma bica d’água perto de onde hoje fica o Mogi Shopping. Eu me escondia atrás do meu pai e não dizia uma só palavra. Ele, que na época ainda tinha um sotaque bem carregado, ficava bravo:
– “Bor que” você não fala com ela? Você é “munto” chato!
Um dia, depois de a cena se repetir mais uma vez, quando já estávamos longe dos olhos daquela senhora, eu justifiquei:
– Mas pai, ela tem bigode!
Tinha mesmo e ele achou graça:
– Você é um menino “munto” chato!
Na volta da bica era sempre a mesma coisa. Eu queria carregar o galão de qualquer jeito e tentava arrancá-lo das mãos do meu pai, mesmo sem ter força para isso. Ele não deixava:
– Você é um menino “munto” chato!
Nessa época, início dos anos 70, eu tinha a mania de sentar no sofá e ficar batendo a nuca no encosto. Meu pai e minha mãe gritavam:
– Chega, menino!
Eu batia ainda mais e logo ouvia a tal frase:
– Você é “munto” chato!
Aos poucos, o tom de reprovação foi mudando. Continuei a ouvir a frase na adolescência, mas a entonação já transmitia um misto de conformismo, bom humor e talvez até, modéstia à parte, um certo orgulho.
Foi assim quando, aos 14 anos, resolvi trabalhar. Meus pais queriam me ajudar. Conheciam muita gente na cidade e podiam arrumar alguma coisa facilmente. Com a teimosia de sempre, disse não e um dia, já em férias na escola, saí de casa bem cedo. Rodei a cidade inteira e voltei com a notícia no fim da tarde.
– Arrumei emprego como office-boy num escritório.
Meu pai sorriu e me fez um elogio:
– Você é “munto” chato!
Na faculdade, nos anos 80 (o contexto histórico é importante), diante de uma professora excessivamente conservadora, exagerei no esquerdismo. Como ela era ostensivamente malufista, virei lulista, ainda que temporariamente, só pra contrariar. Um dia ela não aguentou e soltou a frase, mas sem o sotaque que eu estava acostumado a ouvir:
– Você é muito chato, garoto!
Anos depois, quando era funcionário público e decidi largar tudo para ser jornalista por metade do salário, voltei a despertar a reação do meu pai, cheio de orgulho do filho:
– Você é “munto” chato!
Meu casamento ocorreu em 1991. Sem dinheiro para comprar o sofá e as cortinas, só aceitamos um velho sofá-cama dado pela minha sogra e colocamos lençóis nas janelas. Recusamos a ajuda oferecida por meus pais e logo ouvimos a frase, desta vez no plural. Foi um claro sinal de aprovação e de que eu havia escolhido a pessoa certa:
– Vocês são “munto” chatos!
Um dia, ouvi meu pai contar a um amigo, cheio de orgulho e às gargalhadas, que eu queria conquistar tudo sozinho, sem ajuda e sem pressa:
– Graças a Deus, ele é “munto” chato.
Foram tantos pensamentos numa curta caminhada que, quando percebi, já estava no portão da escola. Meus três amores estavam na cantina. Minha filha, como sempre, não parava de falar.
Uma funcionária puxou conversa com meu filho e ficou falando sozinha, sem ouvir resposta dele. Na hora de ir embora, quis carregar a mochila, mas ele não deixou. No caminho para casa, ele abriu a boca para dizer que queria passear de bicicleta, mas sem as rodinhas. Minha mulher explicou que o ideal seria tirar apenas uma, por enquanto.
– Mas eu quero tirar as duas rodinhas!
Sem dizer nada, achei graça daquela teimosia e logo me veio um pensamento, com sotaque bem carregado:
– Não sei a quem esse menino puxou. Ele é “munto” chato!

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