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Meus cremes, por favor!

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h32

Publicado pela 1ª vez em 02/05/2008
Senti uma coceirinha do lado direito da cintura. Logo passou, depois voltou e passou, voltou e passou, voltou e passou… Quando me dei conta, já haviam corrido alguns dias e, ao olhar direito, vi uma pequena mancha vermelha no local. Imediatamente, tomei a atitude de… deixar pra lá. Um dia minha mulher percebeu:
– Você precisa ir ao dermatologista e ver o que é isso.
– Tá.
E de novo deixei pra lá e fui enrolando até que ela marcou a consulta e só me avisou o dia e a hora. Nesse intervalo, havia começado também uma coceirinha sob o cabelo, perto das orelhas.
– Você está com um eczema. É um processo inflamatório provocado pelo ressecamento da pele. Você toma mais de um banho por dia?
– Tomo dois.
– Banhos quentes?
– Isso.
– O ideal é um só, mas se tiver mesmo que tomar o segundo seja rápido e não use sabonete.
Em seguida, o médico preencheu uma folha com mais algumas recomendações: banho rápido, evitar água quente, não usar esponja.
Em outra folha, me receitou um xampu, um sabonete líquido neutro, uma pomada (me avisou que era gordurosa) e… um creme hidradante.
Sempre detestei cremes. Não falei nada, mas ele deve ter percebido pela minha cara.
– O creme é muito importante. Você deve usar no corpo todo. Vamos marcar um retorno para daqui a 15 dias.
– Tá certo.
Deixei o consultório e no caminho para a farmácia fui pensando no tal creme.
– Creme não. Aquele negócio melado… ah não.
Minha mulher, que tem a capacidade de ler pensamentos à distância, me ligou e ordenou:
– Compre tudo o que o médico mandou.
Na farmácia, a balconista logo trouxe o xampu, o sabonete líquido e a pomada.
– Eu não estou achando o creme hidradante…
– Ah, não tem problema.
Não teve jeito, ela foi lá pra dentro e voltou com o creme de embalagem… lilás.
A moça do caixa me perguntou se eu tinha o cartão de desconto. Respondi que não estava comigo. Está no mome da minha mulher, mas sempre dou o número do RG dela e tenho acesso às promoções.
Uma senhora que estava ao lado ficou maravilhada:
– Que lindo, além de comprar cremes para a esposa ainda sabe o número do RG dela!
Só não tive tempo de rir da situação porque logo vi o preço de tanta cremosidade.
– Nesse valor o senhor pode dividir em três vezes no cartão.
– Tá bom.
Cheguei em casa querendo dar o tal creme “de presente” para minha mulher, mas ela recusou e disse que eu tinha que usar.
Obedeci a contragosto. No começo torci o nariz e nem olhava direito ao colocá-lo na minha mão, mas depois confesso que tive uma agradável sensação. No dia seguinte, cumpri todo o ritual e cheguei com quase dez minutos de atraso ao trabalho. Percebi que precisaria acordar um pouco mais cedo por causa do creme da embalagem lilás.
Chegou o feriado de 1o de Maio. De folga, resolvi ver a abertura da Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes e prestigiar os meus amigos Fernando e Tânia, os festeiros de 2008.
Fiz tudo certinho. Banho com o xampu e o sabonete recomendados pelo médico e… o creminho da embalagem lilás. Foi uma sensação diferente mesmo: a família esperando na sala e eu espalhando o creme, como mandou o médico, pelo coooooooorpo todo.
Na cerimônia, me emocionei em vários momentos: na chegada dos devotos com suas bandeiras, na hora do Hino Nacional, no discurso do Fernando, nas palavras do bispo, nas músicas, na felicidade dos meus filhos, ao rever amigos que há tempos não encontrava.
Sempre fui emotivo, mas dessa vez foi diferente. Não consigo explicar. Foi como se tivesse passado de novo o creme, aquele mesmo, da embalagem lilás, pelo coooooooorpo todo. A sensação de leveza me acompanhou no caminho para a quermesse e me fez pensar:
– Será que isso é efeito do creme da embalagem lilás?
Fomos direto para o apetitoso afogado e com os amigos formamos uma mesa de dez pessoas. Depois, vieram a pipoca, os doces, as barraquinhas de jogos e os brinquedos. Tudo muito agradável, feito… creme hidradante da embalagem lilás.
Em uma semana de tratamento, já estou quase bom. Gostaria de reencontrar aquela senhora da farmácia.
– Que lindo, além de comprar cremes para a esposa ainda sabe o número do RG dela!
– O RG é dela, mas o creme é para mim mesmo. Esse aqui, ó, da embalagem lilás.

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