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Meu primo “brasileiro” do Oriente

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h38

Publicado pela 1ª vez em 13/07/2010
A Copa de 2010 chega ao fim e só agora percebo que a eliminação do time daqueles caras que gritavam “eu sou guerreeeeeeeiroooooo!” me deixou com mais tempo livre. Vi os três primeiros jogos ainda no Brasil. Nas partidas contra o Chile e a Holanda, já estava aqui na Síria e foi a mesma coisa, mas o fuso de seis horas a mais ainda permitia o aproveitamento de parte do dia para… não fazer nada.
Sem o Brasil na disputa, consegui ir à praia (aqui é Verão) e passear por cidades montanhosas do interior do país. Por todos os lugares, mesmo em vilarejos e aldeias distantes, vi bandeiras do Brasil nas sacadas e gente com a camisa amarela. Nossas cores certamente eram as mais dominantes, perdendo apenas para a bandeira da Síria, que tem três listras horizontais (uma vermelha, uma branca e uma preta, com duas estrelas verdes no meio). Depois, vinham a Alemanha, a Espanha e ninguém mais. Nada, nada, nada. Tá bom. Vi umas poucas bandeiras da Argentina.
Perto de um santuário cristão na cidade de Maloula, estava outra enorme bandeira brasileira. No lugar sagrado, uma religiosa em fuga e doente pediu a Deus que abrisse uma passagem pela montanha. A visão é impressionante porque as partes separadas parecem se encaixar perfeitamente. Só a Holanda não precisou de tanta fé pra atravessar a… Deixa pra lá.
Também estive em Damasco, talvez a cidade mais antiga do mundo, cheia de monumentos, rotatórias com chafarizes e táxis amarelos por todos os lados. Nas três horas de viagem para a bela capital da Síria, meu primo Mohamed (ou simplesmente Ramude, que é o diminutivo desse nome tão popular), ia apontando as bandeiras do Brasil pelo caminho.
Aos 19 anos, ele já parecia ter recuperado a habitual alegria. Fazia tempo que eu não via alguém tão triste depois de uma derrota brasileira. Desde os nove anos, quando visitou o nosso país pela primeira e até agora única vez, Ramude se interessa pelos assuntos do Brasil e pelo futebol em especial. Guarda até hoje uma camisa do Palmeiras que dei a ele ainda na época em que o time jogava bola.
O problema é que as notícias que Ramude recebe do Brasil só falam de assaltos e assassinatos. Da mesma forma, nós somos induzidos a achar que no Oriente Médio só tem homem-bomba.
Na viagem para Damasco, paramos num restaurante de beira de estrada e ele largou o carro aberto e com a chave no contato. Fiquei assustado e não deixei minha mochila lá, mas quando voltamos estava tudo no lugar.
Minha mulher perguntou se o veículo tinha seguro contra roubo e Ramude disse que isso não era necessário na Síria. Traduzi também a próxima dúvida, na qual ela queria saber o que acontecia em caso de batida. A resposta foi óbvia, mas ao mesmo tempo parecia incomum para ele:
– O culpado paga!
E assim fomos conversando sobre as coisas dos dois países, deixando o futebol de lado. Falamos um pouco em árabe, inglês e português, às vezes numa mistura das três línguas. Quando consegui driblar o Ramude e pagar algumas contas antes que ele pusesse a mão no bolso, percebi que a vida é mais barata na Síria, talvez porque o Brasil seja “pentacampeããããããão” em pagamento de impostos. Uma garrafa de meio litro de água mineral custa apenas o equivalente a 75 centavos de real. Uma latinha de refrigerante, o mesmo preço. Quatro por três reais. Na lata!
Comecei a entender que meu primo do Oriente Médio, apesar de não ter uma seleção própria para torcer, falava com orgulho do país dele. Só me senti “vitorioso” ao perceber um ponto fraco no rápido “curso” de língua portuguesa que meus filhos deram a Ramude. Ele aprendeu a dizer, com sotaque, “Por favor”, “Muito obrigado”, “Come, menino” e “Eu estou muito triste”. Ramude pronunciou esta última frase por alguns dias depois da derrota do Brasil. A alegria voltou quando descobrimos a incapacidade dele para dizer, simplesmente, “borboleta”.
– Bar-bu-li-ta?
-Olé!
– Bar-bu-lee-ta??
– Olé!!
– Bur-bu-li-ta???
– Olé!!!
*Texto publicado na edição de 11/07/2010 do jornal O Diário, de Mogi das Cruzes.

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