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Meu ditador “perfeito”

Haisem Abaki

30 Março 2014 | 10h48

Uma data redonda, os 50 anos do golpe de 1964, me traz a lembrança de um período em que eu era infeliz e não sabia. Sei que vai ter gente desiludida com o presente, questionando se não seria o caso de trocar “infeliz” por “feliz”. Que cada um fique com a sua verdade, mas ainda prefiro a nossa “democracia”, apesar da corrupção suprapartidária, que escala patrulheiros ferozes para o nobre serviço de apontar para o rabo alheio e esconder o próprio. Um dia a gente aprende a dar um pé no traseiro pelas urnas.
Nasci quase dois meses depois da chegada dos militares ao poder. Então, não me culpem pela ingenuidade no início dos Anos 70, quando crianças da minha idade viviam felizes com o tricampeonato mundial de futebol e cantavam músicas de exaltação à Pátria. Pátria com “p” de “perfeita”. Minha memória não consegue voltar ao período de 1964 a 69, a não ser por uma imagem vaga de meu pai me carregando no colo à noite em passeios na praça perto de casa. Era o único jeito de me fazer dormir.
Minha “identificação” com o regime começou pela sonoridade: Garrastazu. Acho que foi na escola, na primeira série, que aprendi o nome do presidente Emílio Garrastazu Médici. Eu adorava falar Garrastazu. Era diferente e me parecia engraçado. E naquele tempo se escrevia Presidente, com “p” maiúsculo, de “perfeito”.
Tinha a mesma sensação com o ministro da Justiça por causa do sobrenome Buzaid. Alfredo Buzaid, que meu pai dizia ser “batrício”. E duas presenças do mundo dos bichos no governo também me divertiam. Havia um Passarinho (Jarbas Passarinho) na Educação e um Barata (Júlio Barata) no Trabalho. Uma vez vi os nomes de todos os ministros num jornal ou revista e decorei um por um sem fazer força. Hoje, com 39 ministérios, por favor, não me perguntem.
Na mesma época, achei em algum lugar um encarte com fotos e nomes dos nossos presidentes, de Deodoro a Garrastazu Médici. E decorei todos também. Meu pai me testava em chamadas orais diante de amigos, que ficavam impressionados. Aos poucos, fui notando que ele resmungava alguma coisa bem baixinho quando eu citava o último, sempre com entonação mais forte no Garrastazu. Saía mais ou menos um “Garraaastazuuu”.
Um dia meu pai falou um pouco mais alto e consegui ouvir. Era um palavrão em árabe. Pai, você está xingando o Presidente Emílio Garraaastazuuu Médici? Eu “pronunciava” com “p” maiúsculo, de “Presidente Perfeito”. Na minha indignação, lá por volta dos oito anos, acho que ele ia me contar alguma coisa feia do “querido” Garrastazu, mas minha mãe não deixou, dizendo que eu ainda era uma criança.
Algum tempo depois, ouvi uma conversa em casa. Discutiam sobre aproveitar o momento e voltar para a Síria enquanto eu meu irmão ainda éramos pequenos. Apareci de repente na sala e berrei que não queria ir embora. Meu pai se virou pra minha mãe e disse que não ia sair da ditadura daqui pra viver na de lá e que a diferença entre as duas era que uma falava a língua dele.
Foi a primeira vez que ouvi aquela palavra que, como Garrastazu, também me chamou a atenção pela sonoridade. Perguntei o que era ditadura e meu pai me contou que no ano em que eu tinha nascido ele havia contribuído com a campanha “Ouro Para o Bem do Brasil”. Olhando fixamente nos meus olhos, disse que as coisas estavam piorando, que não havia liberdade, que um tal de Socialismo era mais justo, que havia gente querendo outra ditadura… Minha mãe cortou o papo quando ele falava de gente que era presa e sumia.
Meu pai concordou e pediu que eu não repetisse o que tinha ouvido pra ninguém, principalmente na escola, já que ele era estrangeiro e poderia ser expulso do país. Acho que foi em 1973, quando estava na terceira série, porque pensei nisso numa aula da Professora Assumpta, outro nome que eu adorava, em que ela falou do meu “ídolo” Garrastazu.
Talvez minha consciência política tenha começado a se formar ali até chegar ao movimento estudantil e ao voto em pessoas que haviam lutado contra o Garrastrazu. Só que alguns desses caras mudaram muito quando trocaram a teoria pela prática. Hoje até aparecem sorridentes ao lado de simpatizantes do Garrastazu, juntos e misturados. Ah, é puro pragmatismo, com “p” de “poder” pelo bem da nação. E ninguém tem memória mesmo, né? Viva o Valetudobras!
A ingenuidade foi embora e levou com ela a sonoridade de Garrastazu, Buzaid, Passarinho e Barata. Pelo menos ficou a saudade da Professora Assumpta. A gente escrevia o “p”, mas não pronunciava. Ela, sim, merecia um “p”, de perfeita. Meu Pai também, com “p” maiúsculo.