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Menos ódio massacrante e mais tolerância

Haisem Abaki

15 de março de 2019 | 11h55

Dedico este primeiro parágrafo, e nenhuma linha mais depois dele, aos ferozes seres “humanos” e milicianos políticos robotizados que se manifestaram nesses últimos dias com mentiras, dissimulações, incompreensões, ofensas, xingamentos e insensibilidade até diante de tragédias em que não deveriam existir lados diferentes se slogans eleitorais fossem de fato praticados na vida real. E faço essa dedicatória especial aos adoradores de salvadores da pátria como agradecimento por uma boa lembrança que me proporcionaram e que vou contar a partir do segundo parágrafo. Antes, me despeço para que possam continuar em suas redes antissociais de ódio e intolerância. Mas se eles quiserem ainda podem seguir na leitura, apesar de terem uma notória e proposital dificuldade de interpretação de texto.

Era o fim dos anos 1970 quando dois sírios se conheceram. Viviam no Brasil há muito tempo e ainda falavam com sotaque. Um era comerciante, em torno dos 50 anos, muçulmano e fã de jornalismo e literatura. O outro, já idoso, cristão, era poeta e escrevia artigos para jornais da comunidade árabe de São Paulo. Devem ter se conhecido num dos muitos eventos culturais dos quais participavam. Alguns eram manifestações políticas em prol da chamada causa palestina.

A aproximação foi muito fácil e natural, já que o muçulmano era leitor do cristão e demonstrava felicidade com a escolha profissional do filho adolescente, que queria ser jornalista. O pai foi logo dizendo isso para o poeta cristão, que passou a incentivar aquele moleque.

Não demorou muito e já estavam frequentando um a casa do outro com as esposas. O muçulmano morava em Mogi das Cruzes e o cristão no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Aos poucos, as visitas foram ficando mais frequentes e longas. O poeta cristão e a mulher dele “pousavam” na casa do comerciante muçulmano.

E as noites eram longas e animadas. Falavam de literatura, jornalismo, artistas do cinema árabe e pensadores árabes. Também comentavam assuntos políticos do Oriente Médio e da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. O muçulmano, mais novo, era um socialista declarado. O cristão, chamado de Mestre pelo amigo, parecia mais moderado. Os dois tinham muito bom humor e contavam “causos” e piadas de “turco”.

Mas havia uma diferença crucial entre eles. O poeta cristão gostava de um cigarrinho e de uma cachacinha, produtos que não faziam parte da vida do comerciante muçulmano. Não faziam, só que sim. Ao saber que o amigo iria visitá-lo, o muçulmano corria para providenciar o cigarro e a cachaça das marcas preferidas pelo hóspede para acompanhar as noitadas que também tinham amendoim, pistache e sementes de girassol.

Um dia, um irmão de religião do muçulmano viu aquilo e quis uma explicação para o álcool e o fumo numa casa islâmica. O comerciante, tranquilo, citou passagens do Corão sobre hospitalidade. E disse que o pior não é o que entra na boca do homem, mas o que sai dela.

Foi a maior aula de tolerância que o filho do muçulmano teve na vida. O muçulmano era meu pai, Mohamed, e o cristão era o poeta Nabih Salemi. Pensei nos dois logo depois de uma chuva, ao ver um arco-íris. E me desentristeci um pouco das nossas tragédias. Será que tem pinga e cigarro lá no céu? Tolerância com quem pensa ou é diferente não faz mal para o fígado nem para o pulmão. E faz bem ao cérebro e ao coração.

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