As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Medalha, medalha, medalha

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h57

Publicado pela 1ª vez em 29/08/2008
– Gosto muito da forma bem-humorada que você usa para dar as notícias e fazer seus comentários. Parabéns.
– O senhor deveria ser mais sério no trato das notícias e parar de pensar que é humorista. Contenha-se.
Esse é um dos motivos pelos quais adoro o Rádio. Quem está do outro lado pode amar ou odiar o dono da voz pelos mesmos motivos e usando os mesmos argumentos. E digo sem falsa modéstia e sem rancor que os dois ouvintes que me mandaram estas mensagens estão certos. Aprendi desde criança a não me acomodar diante de elogios e a não me incomodar ao ser repreendido.
Na medida do possível, procuro um meio termo. Acho que se fosse levar todas as notícias a sério cairia em profunda depressão. O problema é que “neste país” muitas piadas já chegam prontas, como diria José Simão. O cavalo passa arriado e aí é só montar, explicaria Salomão Ésper, um mestre no Jornalismo e na arte de ser sério e bem-humorado ao mesmo tempo.
No noticiário dos últimos dias só deu Olimpíada e a frase mais ouvida era “esperança de medalha para o Brasil”. Foi a nossa gente bronzeada mostrando o seu valor.
No futebol masculino, torcemos para o Dunga se transformar em Mestre e Feliz, sem ser Dengoso. Mas ele tirou uma Soneca e ficou Zangado. Agora, já tem gente querendo espirrá-lo da seleção. Atchim!
Na ginástica, é preciso reconhecer o esforço de todos, mas ainda não foi desta vez. Vamos esperar sentados pelas promessas que surgem depois de cada Olimpíada de mais investimentos neste e em outros esportes.
Tivemos os inéditos ouros do Cielo na natação, da Maureen no salto em distância e das meninas do vôlei. Achei pouco para um país com as dimensões do nosso, mas logo mudei de idéia.
Foi quando passei pela avenida Tiradentes bem na hora do desfile das campeãs do vôlei. Com a via interditada e o motor desligado, voltei a ser repórter de trânsito e dei a manchete. Vi aplausos, mas alguns motoristas sacaram uma vaia. Outro, mais nervoso, ficou “uma vara” e virou levantador de dedo, no caso o obsceno e inconfundível “pai de todos”. “Pódio” uma coisa dessas? Os atletas merecem todas as homenagens, mas ainda bem que foram só três medalhas. Com um Michael Phelps o trânsito de São Paulo mergulharia num colapso e a cidade chegaria às raias da loucura.
Na Redação, chegamos ao consenso de que, terminada a Olimpíada, era hora de dedicar mais tempo às eleições que se aproximam.
Resolvi dar uma passada pelo horário político. Apareceu um candidato com nome de chocolate se derretendo ao pedir votos ao eleitor mais aerado.
Outro, fantasiado de palhaço, entrou em cena para fazer promessas. Só faltou dizer que era um candidato de cara limpa.
Vários outros usaram o bordão “você me conhece”. Nossa, como sou péssimo para guardar fisionomias!
Desisti quando apareceu um que defendeu a educação e prometeu lutar por mais cursos “porfissionalizantes”. Sou meio distraído, mas não foi erro de digitação.
De Brasília, chega uma notícia que parece boa. Por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal decide proibir a contratação de parentes até o terceiro grau no serviço público. Já tem gente querendo dar um jeitinho. Alguns deputados falam em criar “cotas” para parentes. Não resisti ao comentário e defendi uma “cota de sacrifício” com mais trabalho da parte deles. Olha eu de novo tendo um sonho olímpico!
A semana vai terminando e eu chamo no programa uma reportagem sobre parlamentares que fazem mais uma tentativa de aumentar os próprios salários em 50%. Mais um golpe “da medalhinha para baixo” no contribuinte. Caiã Messina, nosso repórter no Congresso, recebe uma provocação ao entrevistar o deputado Jovair Arantes, líder do PTB:
– Por que o senhor acha que um parlamentar tem que ganhar o mesmo que um ministro do Supremo?
– E por que você acha que não tem que ganhar? Eu lhe pergunto o contrário…
– Porque trabalha menos, por exemplo.
Medalha de ouro para Caiã Messina. Esse eu conheço! Ele merece desfilar em carro aberto!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: