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Luto, terapia e renascimento

Haisem Abaki

19 Junho 2015 | 11h49

Na padaria, com meu filho, um conhecido sem muita intimidade acena de longe. Da nossa mesa, apesar da barulheira, entendi o cochicho dele com um amigo, quando já iam embora.

– É aquele cara do Rádio, que perdeu o pai… Do elevador, caiu lá de cima…

Em quase oito anos, foi a primeira vez que ouvi esse tipo de comentário sem reagir. E agora, também pela primeira vez, consigo falar e escrever sobre isso.

Pouco depois do choque que mudou as nossas vidas estava com meus filhos comprando pão sírio e algumas guloseimas árabes que eles gostam. Um freguês da loja disse para a moça do caixa quem eu era: “o filho daquele senhor que caiu do elevador”. Larguei tudo lá e fui embora.

Em outra ocasião, eu corria numa praça quando encontrei um colega que não via há tempos. E a primeira pergunta foi sobre “a tragédia do seu pai”. Encerrei a conversa e fui pra casa chorando.

Na cultura árabe, um filho é tão importante que até mexe com a identidade dos pais. O bebê nasce e eles “perdem” o nome próprio para valorizar a descendência. Traduzindo, pra ficar mais fácil de entender: em 21 de maio de 1964, quando a coisinha aqui veio ao mundo, o seu Mohamed passou a ser Abú-Haisem e a dona Fátima virou Âm-Haisem. Abú, pai de. Âm, mãe de.

A paternidade e a maternidade ficam marcadas para sempre, geração após geração. E isso independe de qualquer preceito moral, ético ou religioso. Veja os nomes dos terroristas mais procurados e temidos, capazes das maiores atrocidades que um ser um humano pode cometer. Há vários Abús entre eles.

E assim me acostumei a nunca mais ouvir os nomes dos meus pais. Quando recebiam amigos em casa, nas conversas era só Abú-Haisem pra lá e pra cá, o tempo todo. Demorei pra entender que não era comigo que as visitas falavam.

Meu pai sempre foi um cara que me incentivou a pensar, a ter opinião e a me expressar. Queria que eu vencesse a timidez pra trabalhar no Rádio que ele tanto amava e ouvia, o dia inteiro, quase no último volume. Era meu ouvinte “número um”, sempre com comentários a fazer nos almoços de domingo.

Passei os últimos sete anos sentindo essa ausência a cada dia e me culpando por não ter impedido que ele se mudasse para aquele prédio e para um andar tão alto, o 11o. Fugi da vida, magoei quem mais me amava e me afastei dos melhores amigos. Achei que sofrendo sozinho estaria preservando quem realmente era importante pra mim.

Só não parei de trabalhar porque Deus deve ter dado um jeito pra que pelo menos eu pudesse sustentar a minha família. E ainda deixou alguém especial “de plantão” pra me socorrer nos piores momentos. O Rádio passou a ter um apresentador que fazia programas com dor na alma e enganava todo mundo, disfarçando o sofrimento e parecendo “forte”. Algumas pessoas me viam como “exemplo de superação”.

Pensei em tudo isso enquanto observava o neto do Abú, ali na minha frente, tomando uma vitamina com muito gosto, até fazer barulho com o canudinho. Ele tinha quatro anos na época e agora está com 12. O moleque puxou o senso de humor do avô. A cada pergunta que eu fazia, sobre a escola, por exemplo, ele respondia citando a nossa cachorra: “porque a Meg faz cocô”. Às vezes variava com um “porque a Meg é gorda”.

Rimos muito e fomos embora lançando um “desafio” de perguntas um para o outro, sempre com a mesma resposta canina e fecal. Fiquei imaginando os momentos que deixei de viver nesses sete, quase oito anos, até decidir, finalmente, fazer terapia pra tentar me reencontrar com o cara que eu fui. Sei que demorei muito e que o que perdi talvez não volte nunca mais, mas a vida agora me colocou diante da pessoa certa pra me ouvir e entender.

Se alguém estiver com lágrimas rolando, “pó pará”, por favor! Já estou renascendo. O Abú sempre falava que, para ser feliz, basta ter fé, dizer uma palavra bonita, contar uma piada, fazer bons amigos, cuidar da saúde e, principalmente, amar alguém. Ele foi assim até o fim. O último gesto foi fazer uma brincadeira com quem amava, antes de entrar no elevador que não estava lá.

Estou retomando esse caminho aos poucos. Ainda falta rever alguns amigos pra falar muita bobagem. E o coração está aguentando firme as minhas corridas e redescobrindo a capacidade de amar. E “pó pará de chorá” de novo, que eu vou conseguir. E sabe por quê? Porque a Meg faz cocô! Meu pai ia adorar essa resposta…