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Lições de um cadáver inocente

Haisem Abaki

04 de setembro de 2015 | 12h23

O “mundo civilizado”, normalmente insensível às tragédias divulgadas em números constantemente atualizados pelas agências de notícias, agora se diz “chocado” com a imagem de uma criança morta numa praia na Turquia.

Se tivesse concluído a travessia, Aylan Kurdi, de três anos, seria só mais um para engordar a quantidade de refugiados sírios, contada morbidamente por autoridades que quase não se mobilizam.

Se tivesse morrido longe dos nossos olhos, seria só mais um pontinho invisível na estatística, destino da mãe e do irmão dele, de cinco anos, que também morreram, mas não tiveram uma última foto. Afinal, é apenas uma guerra distante, que não nos afeta na sequência de nossas vidas do lado de cá.

Estamos acostumados, inclusive na mídia, a tratar do tema como mera contabilidade. Um morto é só mais um em manchetes que dão a dimensão da tragédia em proporção, mas, com algumas exceções, não em emoção, indignação e vergonha humana.

A diferença é que agora há um pequenino corpo para ser exposto e provocar manifestações de “comoção” e de “solidariedade”, muitas até sinceras. Sim, e depois disso o que é que vem?

Vem, por exemplo, a declaração do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, dizendo que o país tem o direito de recusar os refugiados porque eles são muçulmanos e a Europa é cristã. Importa se o cadáver é de um muçulmano, cristão, judeu, ateu ou de qualquer outra crença?

Um ser como ele, de pensamento tão torto, está mais afinado com o passado longínquo das Cruzadas ou mais recente e vergonhoso do nazismo, além da ignorância do papel da cultura árabe e muçulmana na própria história do “continente civilizado”. A ironia é que esse sujeito se iguala aos radicais, terroristas e assassinos do Estado Islâmico. Só não escondeu o rosto, mas tem uma caneta com o mesmo poder do facão dos que promovem o espetáculo das decapitações.

Menos mal que ainda exista gente como a fotógrafa Nilufer Demir, que registrou o triste fim do menino sírio. Fez o trabalho dela mesmo se dizendo “petrificada” com a cena e ajudou a dar um tapa na cara de líderes com coração de pedra.

Aos três anos, o garoto Aylan já devia falar coisas como “mama” (mamãe), “baba” (papai), “taita” (vovó) e “jido” (vovô). Talvez até já soubesse o significado de “harab” (guerra).

A imagem daquele pequeno corpo me trouxe a lembrança do meu menino, hoje com 12 anos. “Taita” e “jido” eram algumas das palavras preferidas dele aos três anos. Um ano depois ele perdeu o “jido”. Nunca pensei que hoje teria um sentimento de alívio por meu pai não estar aqui para ver o que fizeram com a terra dele.