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Jornalismo também é um barato!

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h11

Publicado pela 1ª vez em 14/11/2008
Jornalistas adoram um espelho. Alguns, literalmente, se admirando em momentos de autocontemplação. Outros, apenas como mais uma ferramenta da profissão. Ferramenta? Vou tentar explicar melhor, principalmente aos que não são do ramo. Também chamamos de espelho o roteiro que indica os assuntos em destaque no dia, preferencialmente em ordem de importância. É uma espécie de guia do programa que vai ao ar, a refletir os principais temas do noticiário.
Na Rádio Bandeirantes, o chamado “pré-espelho” já começa a ser produzido no meio da manhã e é consolidado à noite, quando são definidos os assuntos que vão dominar a programação no início da manhã do dia seguinte. O problema é que o espelho pensado e executado com tanto esmero, dependendo dos acontecimentos da noite, da madrugada e do mundo conectado o tempo todo por fusos horários diferentes, pode amanhecer quebrado em mil pedacinhos.
Nos últimos dias, assuntos como a eleição de Barack Obama e a crise financeira mundial foram os mais destacados. Minha rotina, enquanto o sol ainda não nasce por aqui, é olhar para o espelho bem cedinho, ainda com um pouco de sono, e checar como vão as coisas do outro lado do mundo, onde o sol já brilha ou até já está indo embora. Às vezes é preciso ajeitar um fio rebelde de cabelo ou até pentear tudo de novo. Confesso que, apesar da agitação, gosto quando a rotina é quebrada e sou obrigado a arrumar tudo na hora, quase sem tempo.
O espelho ajuda a dar aquela sensação de dever cumprido, de que nenhuma notícia importante foi deixada de lado, mas o fato é que cada vez mais percebo que o ouvinte também gosta de um perfumezinho, um corte de cabelo radical, um “visual” mais despojado, embora o assunto seja rádio. O esforço pela seriedade que algumas notícias exigem é grande. Só que no fim das contas o que rende comentários, e-mails e torpedos é a graça, a ironia e até a bobagem que às vezes surgem no improviso.
Foi assim quando o nosso diretor, José Carlos Carboni, apareceu no estúdio com uma reportagem da Folha de S. Paulo sob o título “Baratas têm estratégia para rota de fuga”. Uma pesquisa feita por cientistas da Itália, do Reino Unido e dos Estados Unidos comprovou que enquanto o bicho-homem se prepara para pegar o chinelo e o bicho-mulher sobe na cadeira, a barata, que de tonta não tem nada, escapa por diferentes caminhos, em ângulos que variam de 90 a 180 graus da direção da ameaça.
Tudo devidamente calculado com sangue de barata e registrado em video pelos quatro pesquisadores que fizeram a esmagadora descoberta do que chamaram de “pelo menos quatro picos de rotas de fuga”, sob controle dos neurônios do rastejante animal (que barato!). A reportagem termina citando o lado prático da pesquisa: a possibilidade de prever o melhor lugar para mirar o chinelo na coitada. Não havia referência ao custo da pesquisa. Acredito que, com a união de esforços de cientistas de três potências mundiais, deve ter havido um barateamento.
Joelmir Beting entrou por uma fresta com outra constatação. Contou ter visto num documentário que as formigas fazem alongamento ao acordar. Mais um belo exemplo do mundo animal, vindo de pequenos seres que, ao agir assim, combatem o formigamento muito comum nos bichos humanos que ficam parados, sem fazer nada.
Alguns ouvintes se manifestaram comparando as baratas às escapadas de certos políticos. Decidi não revelar os nomes dos alvos dos implacáveis chinelos da audiência. Não quero assustar as baratinhas, coitadas! Técnicos e jogadores de futebol explicando derrotas também foram lembrados de maneira pulverizada, mas não vale pisar neles.
Alguém aí ainda se lembra do principal assunto do dia? Consultei o espelho e vi que era a crise da selva financeira. Aquela que pensaram que ia ficar barata, mas saiu bem cara. Chinelos, preparar, apontar…

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