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Jornalismo de batina e com sermão

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h06

Publicado pela 1ª vez em 19/10/2008
Foi uma semana cansativa, difícil e de emoções fortes. Apesar do descanso das aulas na universidade, proporcionado pela chamada “Semana do Saco Cheio”, foi tudo muito corrido. Dois acontecimentos que mexeram com o dia-a-dia e com a sensibilidade das pessoas dominaram o noticiário.
Um deles foi o absurdo e patético confronto entre polícia e polícia. A população que paga impostos em troca de proteção viu gente armada perdendo a cabeça. Gente que ganha pouco e merece um salário mais digno, mas que põe o dedo no gatilho para protestar.
Autoridades, que nessas horas de crise sempre minimizam o tamanho dos fatos, disseram que a polícia continua unida e que as divergências são apenas “pontuais”. Concordei plenamente ao comentar a notícia no rádio. São apenas questões pontuais mesmo. Ponto 40, uma das pistolas usadas pelas forças policiais.
O outro assunto foi a tragédia da menina Eloá, morta aos 15 anos depois de ser mantida em cativeiro por cinco dias pelo ex-namorado, em Santo André. O desfecho das mais de 100 horas de espera é sem dúvida um assunto que provoca discussões acaloradas.
De um lado, surgem os questionamentos técnicos e policiais, por mais contraditórios que sejam. As perguntas vão de um extremo a outro: “Por que a polícia não invadiu logo o apartamento?” ou “Por que a polícia não esperou um pouco mais?”. Nessas horas em que as emoções estão envolvidas é difícil manter a razão. Optei por não fazer comentários. É preciso esperar pela conclusão da investigação para saber quais foram os erros e os acertos. Não sou especialista, mas considero inaceitável permitir a volta de uma refém libertada ao cativeiro, como aconteceu com a garota Nayara.
Jornalistas gostam de esmiuçar a vida das pessoas e, com o prolongamento do sequestro, isso foi inevitável. Descobriu-se que o namoro entre a principal vítima e o sequestrador havia começado há três anos, quando ela tinha apenas 12 anos e ele 19.
Também não sou expert nisso e procurei duas autoridades no tema. Na Rádio Bandeirantes, ouvimos o hebiatra (médico de adolescentes) Maurício de Souza Lima, nosso colaborador, e o psicólogo e professor da USP Aílton Amélio da Silva, especialista em assuntos amorosos.
Os dois disseram que uma diferença de sete anos não é nada entre adultos, mas é enorme entre a infância, a adolescência e o início da vida adulta. Disseram também que cabe aos pais orientar e evitar relacionamentos desse tipo. É claro que seria exagero afirmar que esta foi a causa da tragédia. Prefiro deixar as conclusões para quem entende do assunto.
Os últimos dias foram tão exaustivos que pensei em me calar e só voltar a este espaço na semana que vem. Eu não conseguiria corresponder às expectativas dos leitores, que sempre esperam por temas leves e bem-humorados. Mas não poderia ignorar fatos que dizem respeito à prática do jornalismo.
Como sou apenas jornalista há 22 anos, não me sinto no direito de, em nome de uma pretensa “ética corporativa”, deixar de comentar o que nós fizemos. Um assunto como esse não pode ser deixado de lado. E não é simplesmente pelo lugar-comum de dizer que “vende jornal” ou que “o povo gosta de sangue”. As pessoas se interessam, comentam com a família, com os amigos, no trabalho, na padaria. Então, cabe ao jornalista noticiar e acompanhar de perto. A questão aqui é saber qual é a dose certa.
No sábado passado, passei seis horas ininterruptas no ar, só com esse tema. Alguns podem julgar que foi um exagero, mas procurei me policiar ao máximo no tom e nos comentários para não perder de vista a notícia. Ainda não sei dizer se tive mais acertos ou erros, mas, mais uma vez, vou dar um pontapé nessa “ética corporativa” que ronda algumas cabeças, muitas vezes em nome da auto-preservação da espécie.
Para mim, errou feio quem fez entrevistas com o sequestrador em pleno andamento do sequestro. Ele virou uma celebridade com a banalização do chamado “furo jornalístico”. Na Bandeirantes, nem tentamos fazer “a entrevista”.
Não posso dizer que os “entrevistadores” contribuíram para o prolongamento do caso, mas com certeza não ajudaram em nada. Jornalistas são só jornalistas e nada mais do que isso. Não estão acima do bem e do mal, embora alguns se sintam planando em outra esfera. Não vou cair em outro lugar-comum, aquele que diz que essa profissão é “um sacerdócio”. Jornalista não usa batina, apesar de adorar fazer sermões.
Encerro aqui esta semana difícil, a “Semana do Saco Cheio”. Espero voltar na semana que vem, mais leve, com mais humor.

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