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Intolerância vírus

Haisem Abaki

08 de abril de 2016 | 09h53

O recente noticiário sobre política, futebol e terror religioso me fez viajar uns 25 anos no tempo para reencontrar três momentos profissionais “fanatizantes”, todos no início dos anos 90.

Primeira parada: 1992. A memória não sabe mais se Fernando Collor ainda estava na Presidência ou se Itamar Franco já havia assumido. A pauta era uma assembleia de funcionários da Volkswagen, em São Bernardo do Campo. Era o começo da CBN e os carros de reportagem tinham apenas a inscrição “Sistema Globo de Rádio”. A palavrinha do meio foi a senha para o surgimento de fanáticos valentões sindicais.

Olharam torto durante um boletim que eu fazia ao vivo, pouco depois das cinco da manhã. Enquanto falava, pude ver alguns caras cercando o veículo. Logo vieram as primeiras batidas e os gritos de “vamu virá, vamu virá”. Terminei e saí. Acho que estava com o Jordão, motorista e fiel companheiro, que já puxava uma conversa com o bando bravo.

Ouvi as primeiras agressões verbais, que soavam como bordões decorados. Tive vontade de responder no mesmo tom, mas veio a lembrança de um conselho do meu pai. “Usa sembre o força da balavra. Não brecisa gritar, mas usa sembre o força da balavra”. Perguntei ao mais exaltado a que horas ele tinha levantado para estar ali às cinco. Ele disse “às quatro, por que você quer saber?”. Respondi que eu tinha acordado antes dele para trabalhar. E o Jordão dizia algo do tipo “a gente é trabalhador como vocês”.

Fez-se um silêncio e em seguida apareceu um sujeito mais simpático que se apresentou como assessor do Vicentinho, o presidente do sindicato dos metalúrgicos, que hoje é deputado pelo PT. Então, pedi que ele fosse localizado pra entrar no ar comigo. E assim foi. Duas participações ao vivo, uma na CBN e outra na emissora daquela assustadora palavra: Globo. E o sorridente Vicentinho disse na frente dos brucutus que era ouvinte e que o meu nome “diferente” chamava a atenção. E me pediu desculpas. Aceitas.

Segunda parada: 1993. Eram os dias que antecediam a decisão do Campeonato Paulista entre Corinthians e Palmeiras. Meu time numa fila de quase 17 anos… A missão era visitar a Gaviões da Fiel e a Mancha Verde para uma reportagem sobre os preparativos das duas torcidas. Acho que hoje, com o histórico de violência delas, já não cabe mais abrir um espaço desse jeito. Estava tudo tranquilo na sede da Gaviões até um rapaz me reconhecer pelo nome “diferente”. “Pô, esse repórter é palmeirense!”. E logo veio um grupinho me cercar. Por sorte apareceu o Dentinho, que, se eu não estiver enganado, era o presidente da época. Pediu pra me deixarem em paz e dei o troco aos truculentos entrando ao vivo com ele. Na sequência, o nome “diferente” também me fez ser reconhecido na Mancha Verde. Em nenhum momento me apresentei como palmeirense, mas um diretor disse que era ouvinte e me atendeu muito bem. Fiquei imaginando como tratariam a minha colega Cátia Toffoletto, corintianíssima e competentíssima. Fiz o meu trabalho e fui embora. E o Palmeiras foi campeão. Sei que este não é o assunto, mas não ia deixar passar…

A última parada na viagem no tempo foi em 1995 ou 96, já não sei mais. A pauta era a repercussão de mais um conflito no Oriente Médio e eu tinha que ir à Mesquita Brasil, na Avenida do Estado, numa sexta-feira de orações. E o meu nome “diferente”, porém nem tanto para aqueles senhores que lá estavam, também me fez ser reconhecido. Um dos presentes, mais idoso, quis saber se eu era de origem muçulmana mesmo. Confirmei e na sequência já veio a primeira cobrança. Ele queria que eu defendesse “a causa” no rádio. Outro, mais agitado ainda, perguntou se eu falava árabe. Respondi que sim e ele imediatamente mudou a língua da conversa. Argumentei que estava ali como repórter e que se quisessem ser ouvidos o papo seria em português. Outro sujeito resmungou que era pra me colocarem pra fora dali, mas surgiu um cara mais novo que chamou os tementes a Deus num canto e depois veio me atender com gentileza e atenção, pedindo desculpas pela exaltação.

De volta da viagem para este tempo “moderno” que vivemos, cheguei a três conclusões. Primeira: a intolerância não é novidade, mas hoje tem muita gente contaminada por esse “vírus”, escancarando sem máscara um fanatismo que emburrece e empobrece o debate até de pessoas supostamente inteligentes e esclarecidas. A segunda: meu pai tinha razão. Contra a ignorância é preciso “usar sembre o força da balavra”. Só que ultimamente isso já me dá preguiça e às vezes traz uma imensa vontade de manter um silêncio eloquente. A terceira: talvez a vida fosse mais fácil se eu não tivesse um nome tão “diferente”. Um Zé já resolveria…