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Inocentemente vorazes

Haisem Abaki

13 Novembro 2015 | 09h53

Eu estava no cinema, vendo uns 814 trailers enquanto esperava pacientemente por Bellucci, Monica Bellucci… Perdão, enquanto esperava por Bond, James Bond, em “007 Contra Spectre”. Aí, surgiu na tela uma prévia de “Jogos Vorazes: A Esperança – O Final”. Foi quando a mocinha da poltrona ao lado me ofereceu chocolate.

– Pai, você assiste comigo?

– Mas dá pra entender sem ter visto os outros dois?

– Não são dois, pai. São três. É que o último livro foi dividido em duas partes.

– Ah…

– Você assiste os três na Netflix e depois vem comigo. Você vai gostar. Fala de política. É uma ditadura…

Então, ela começou a cochichar comparações entre a trilogia literária e a adaptação para o cinema. Topei encarar a maratona pra depois ver o quarto filme com ela. Sou um cara fácil de convencer. Basta uma vozinha doce, como a dela. Mais nada. Certo, reconheço que faço qualquer coisa por um pedaço de chocolate, que desperta o meu lado voraz.

Tudo combinado entre nós e começa o filme da Dona Bellucci no qual o Daniel Craig se intrometeu e apareceu mais do que ela. Ô sujeitinho… Cenas impactantes do começo ao fim, sempre prendendo a atenção. Minha criticazinha de cinema preferida gostou, mas fez uma ressalva. Achou que o motivo da vingança do vilão era “muito bobo”. Concordei com ela. Matar aquele montão de gente só por causa de… Claro, não dá pra contar aqui. Não sou um estraga-prazer. Nem da abertura do Mar Vermelho eu falei antes da hora!

E dois dias depois ela já estava cobrando a promessa, fazendo uma resenha do filme para me introduzir na temática “voraziana”. Confesso que iniciei a sessão com um pensamento fixo de “putz, duas horas e vinte e um minutos!”. Aos poucos, fui me envolvendo pela história de uma sociedade corrupta e midiática num reality show macabro, já devidamente doutrinado pelos relatos detalhados de minha leitora/cinéfila de 16 anos.

Ela quis saber se eu havia gostado. Respondi que sim, sem a necessidade de chocolate. No dia seguinte vi a segunda parte, “Jogos Vorazes – Em Chamas”. A previsão era de um massacre, mas foi o começo de uma revolução, que depois tomou corpo no terceiro filme, que assisti no dia seguinte, no maior embalo e ainda sem chocolate. Fiquei lá, na torcida contra o ditador de Panem, apesar de ser fã do Donald Sutherland. Missão cumprida, agora à espera da estreia no cinema pra fechar a saga com mais chocolate.

Mas tive um “sentimento de culpa” depois de uma das sessões caseiras por não ter visto nenhum noticiário. Liguei a TV para reencontrar a “vida real”. Apareceu uma legião de inocentes. Um que não era culpado por ter contas lá fora, uma que não era culpada de arrombar o orçamento, outro que não era culpado por fechar escolas… Ah, e uma tragédia humana e ambiental, obviamente sem nenhum culpado também. E eu não tinha ido ao cinema nos tais “Jogos Vorazes” por achar que só ia ver violência sem sentido…

Deu vontade de voltar logo para a “ficção” da telona. Imaginei um filme com essa turma de inocentes na arena gigante de “Jogos Vorazes”. Lá, lutariam pela sobrevivência. E só poderiam comer carne enlatada. Carne enlatada de manhã, carne enlatada de tarde e carne enlatada de noite. Queria ver se o apetite seria tão voraz assim. Ou então seriam perseguidos implacavelmente por James Bond em “007 Contra Spertos”. Eu levaria minha companheirinha para uma sessão bem educativa e assistiria com um prazer mórbido. E seria melhor ainda com mais Monica Bellucci e mais chocolate.