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Ideologia, astrologia e gritaria

Haisem Abaki

15 Novembro 2014 | 16h52

Na rotina de corredor compulsivo, todo suado, encontro um antigo conhecido que não via desde mil novecentos e fernando henrique cardoso. Papo bom, um pouco nostálgico… Mas parece que todo mundo que dá de cara com algum jornalista sempre puxa um assunto da atualidade, de preferência da política. Se eu fosse médico, será que o tema seria cirurgia, tratamento ou uma dor aqui e outra ali?

Como não sou do estetoscópio e apenas do microfone, veio o esperado: “E essa história agora, do impeachment da Dilma? Perderam a eleição e acham que vão ganhar na marra!”. Sem querer puxar o saco do interlocutor, falei o que realmente penso. Não se tira um presidente eleito, seja quem for, com base em diz que me diz ou em mi-mi-mi. É preciso haver uma prova concreta.

Meu amigo indignado acenou a cabeça concordando, mas logo entendeu o recado. Era o mesmo discurso daquela que talvez tenha sido nossa última conversa, lá nos anos 90, quando ele estava empenhado no “Fora FHC!” e não entendia como eu, que não havia votado “no sociólogo”, me posicionava contra uma proposta “que não era golpe”.

Sem encarar a própria contradição, o velho companheiro apontou uma mudança em mim: “Você tá bem, tá magro”. E cada um seguiu o seu caminho, sem maiores discussões, sem perder o respeito e sem a gritaria que ainda ecoa pelas redes em que as pessoas se revelam cada vez mais antissociais.

Retomei a corrida e me veio a lembrança de outros momentos daquele passado já distante. Era um tempo em que minhas leituras rimavam muito: ideologia, biografia, teologia, filosofia, astrologia. O último tema era só pra descontrair e não me tornar fanático pelos outros assuntos… Tá bom, confesso que encomendei um mapa astral, convencido por alguém que achava que eu não era de Gêmeos porque não parecia volúvel. A dúvida era por eu ter nascido no primeiro dia do signo.

O papel se perdeu por aí, em alguma troca de endereço. Fiz mudanças nos anos mil novecentos e médici, mil novecentos e sarney, mil novecentos e collor (aí foi por causa do casamento), mil novecentos e itamar, mil novecentos e fernando henrique de novo e a mais recente, em dois mil e dilma.

Ideologia e astrologia já não me encantam tanto, mas ainda tenho na memória meu Ascendente em Libra, que segundo o tal mapa me fazia ser “uma pessoa sensível e amorosa”. Ah, e também dizia que eu tinha a Lua em Touro, o que significava “determinação e perseverança”.  Na época, ouvi a explicação de que essas características serviam para “amenizar a inconstância e a indecisão de Gêmeos”. Caramba! Devia ter me lembrado disso antes… Cadê o cara? Sumiu! Eu poderia ter dito com toda a formalidade e a gravidade que o momento exigia: “Eu sou Gêmeos com a Lua em Touro e não fico mudando de lado como você. Passar bem!”. E, já indo embora: “Vai ver em que signo a Lua estava quando você nasceu!”. Ou talvez não, porque o Ascendente em Libra não deixaria…

A crônica termina desse jeito aí em cima. Só estou de volta pra acrescentar um detalhe. Seria inconstância ou indecisão da minha parte? Lá vai… Depois de muito tempo desligado do tema, fui ver o horóscopo.

“O dia em que não precisares mais da figura de um adversário poderás afirmar que és livre, até lá tua história será pautada pela dependência. Aqueles que adoras criticar são teus adversários, os que denunciam o espaço estreito em que te movimentas, e aqueles que encontram na tua alma uma adversária e, por isso, te endereçam críticas e ofensas, esses estão no mesmo calabouço existencial. Como a humanidade evolui, hoje a consciência percebe melhor a estreiteza do calabouço, mas ainda não atinou a se libertar, como resultado as vozes aumentam de tom e todos querem ganhar no grito. O resultado é que todos perdem, porque o calabouço, que já era estreito, se torna menor ainda. É como fazer onda quando a água bate o queixo”.

O Oscar Quiroga sabe das coisas…