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Idas e vindas da quarentena

Haisem Abaki

15 de maio de 2020 | 11h32

Oito semanas de isolamento permitem a este privilegiado que pode trabalhar em casa enxergar muito além do que a vista alcança da janela e da sacada. No meu caso, ainda tenho a janela radiofônica aberta por um equipamento que virou companheiro de cabeceira. Mas foi pela falsa janela das redes sociais que percebi várias idas e vindas.

Vi gente assumidamente arrependida de uma escolha feita em 2018. Também vi gente silenciosamente constrangida pelo mesmo motivo. E, em menor número, pessoas roboticamente radicalizando suas posições. Teve gente que foi embora, me dando o alívio de não interagir mais comigo. E teve gente que tinha feito o mesmo caminho há uns quatro anos, em outro momento de tensão política, e agora foi chegando devagarinho.

Só que no meio desse povo virtual, alguém recorreu à memória do meu pai para insinuar que talvez ele não estivesse satisfeito comigo nos dias de hoje. Eu não me impressiono com essas idas e vindas e procuro não pensar muito sobre isso. Deixo tudo para trás e limpo a mente em minhas rockaminhadas. Ando sete quilômetros por dia com muito rock nos ouvidos, na cabeça e na alma. E os últimos 300 quilômetros foram percorridos entre quatro paredes, sem sair de casa.

Reparei em meu pai em um porta-retrato e me veio uma lembrança, talvez disparada por aquela referência de quem acha que o conhecia. O ano era 2006, em um domingo qualquer, depois do almoço na casa dos meus pais. Havia tensão política também. Eu estava deitado em uma rede na varanda, quando meu pai puxou alguns assuntos que eu tinha falado no rádio naquela semana.

Com a memória intacta de uma “criança” que havia completado 80 anos, ele falou com precisão de temas dos quais eu já nem me lembrava diante da correria diária. E todos  eram sobre um político que ele admirava e no qual eu havia votado por 20 anos, até acordar. O tom parecia de repreensão, mas a conversa terminou com um abraço e com um “tenho orgulho de você”.

Não é o caso de entrar em detalhes sobre o que mais ele falou de mim naquele abraço porque nunca fui de exibicionismo barato e emocional. Mas meu pai, do alto de sua sabedoria de apenas três anos de estudo formal, disse que um jornalista precisa ser honesto com a própria consciência e com a inteligência das pessoas. Algo que, na moda da gourmetização de tudo, poderia ser chamado hoje de “honestidade intelectual”.

Ele encerrou a conversa ensinando que eu não deveria proteger nenhum político da minha preferência nem terroristas “muçulmanos falsos” que matam pessoas em nome de Deus. E quando já estávamos entrando em casa ele se virou com um “ah, e nem o Balmeiras”. Só que aí deu um sorrisinho de canto de boca e uma piscada.

Com essa doce lembrança, digo um “até mais” para quem se afastou e que será recebido com um “bem-vindo” se um dia voltar, mas não ficarei à espera de quem só ofende e não sabe dialogar. E pra quem voltou, deixo outro “bem-vindo”, mas sem a ilusão de que nunca mais vai embora. Que cada um escolha o seu caminho.

Com todos esses pensamentos, nem percebi que já tinha andado nove quilômetros na “pista” sala-corredor-quarto. Alma leve percorrendo a “paisagem” na qual estão pessoas que ficarão para sempre em minha vida. Elas estão lá, em vários porta-retratos. De um deles, com meu pai, minha filha e meu filho, senti um sorrisinho de canto de boca e uma piscada.

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