As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Homem (zinho) de palavra

Haisem Abaki

27 Novembro 2015 | 09h50

Terminando uma semana de trabalho, quase chegando pra ver minhas duas versões melhoradas, o moleque avisa que está no shopping. Precisava comprar um livro para fazer uma prova. Minha reação “chato-paternal” foi dizer “huuummm, deixou pra última hora, né?”, que ele respondeu de forma mais sucinta, com outro “huuummm” e nada mais. Acho que ele me puxou um pouco.

Fui direto pra lá e a irmã também estava junto, aproveitando a viagem e com dificuldade de escolher o que ler, já que gosta de muita coisa ao mesmo tempo. É, também fico assim quando estou em uma livraria. Mas a preocupação maior era com o rapazinho, já que o livro não veio fininho como ele esperava. Diante do meu comentário sobre “a espessura”, o garoto reagiu com o habitual “huuummm”.

Combinamos uma “operação de guerra” com a qual ele concordou prontamente com um… Precisa falar? Claro, “huuummm”! O cenário para a intensa leitura seria a casa da avó, sem maiores distrações, como piscina, games no celular, futebol e a nossa cachorra. Só que antes, já que estávamos no shopping mesmo, uma pausa para uns joguinhos. Pedido feito pelo leitorzinho e aceito por mim com um “huuummm”. Mas foi um “huuummm” diferente, em forma de “vê, lá, hein!”.

Antes do “partiu, casa da avó”, onde iríamos dormir, fomos pegar umas coisas. A principal foi o travesseiro. “Ela tem lá, mas eu gosto de dormir com o meu cheirinho”, decretou como, percebe-se, em uma longa frase. Soltei o “huuummm” da aprovação e saímos com nossas tralhas.

O livro obrigatório era “Cartas de Amor aos Mortos”, de Ava Dellaira. Já tinha ouvido falar e achei interessante. É a história de uma menina que muda de escola depois da morte da irmã e parece ter algo a esconder sobre o passado. E de cara uma professora pede que os alunos escrevam uma carta para alguém que já morreu.

Passei os olhos rapidamente, já que a prioridade era do moleque que fez um “huuummm” ao me ceder o livro. Vi que a personagem escreveu para gente como o vocalista do Nirvana Kurt Cobain, as cantoras Janis Joplin e Amy Winehouse e a poetisa Elizabeth Bishop.

Ele começou a leitura e eu fiquei por perto, de plantão, para tirar alguma dúvida. A primeira foi a palavra “precoce”. Lógico que pensei em uma certa “besteira” masculina, mas dei a explicação clássica, que o mocinho demonstrou ter entendido ao fazer “huuummm”. Depois veio “caxemira”, que eu já fui dizendo se tratar de uma área disputada por Índia e Paquistão. Como ele não fez o “huuummm” da compreensão, pedi que lesse a frase inteira em voz alta. E a cena se passava diante de um guarda-roupa… Então, o precoce fui eu. Tudo certo! Noções de geopolítica e moda em uma só palavra…

Na sequência, ele quis saber o que eram “mazelas”. Molezinha! Exemplos não faltam no noticiário. Sacou logo com o “huuummm” e seguiu em frente. Depois, vieram “peculiar”, “quitinete” e “centelha”. Todas muito bem assimiladas pelo garoto com “huuummm”, “huuummm” e “huuummm”. Ele pediu uma pausa pra descansar, que aprovei com um “huuummm” temporário.

Só que no descanso o garoto resolveu ler minha última crônica em voz alta, um exercício que fazemos de vez em quando como brincadeira, mas que também é bem didático. Ele parou diante das palavras “midiáticos”, “estereótipo” e “fastfoodicamente”. Achou engraçada esta última, por causa do som e principalmente quando soube que ela não existe.

Perguntei o que ele havia entendido e ouvi “que não se pode matar em nome de Deus e que somos todos iguais”. Minha retribuição fui um efusivo “huuummm”. Na verdade um pouco mais longo e feliz: “huuuuuummmmmm”.

Nem era necessário ter tamanha expressividade na fala. De “huuummm” em “huuummm” já percebi que esse carinha de 12 anos é melhor do que eu. Tomara que escreva belas cartas, mas principalmente aos vivos. E que o coração dele não trate ninguém que esteja em vida como morto.

Ah, e o moleque vai me emprestar o livro. Pedi e ele disse “huuummm”. Sei que vai cumprir o prometido. É um homem (zinho) de palavra. Uma só palavra! E não precisa mais do que isso.