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Homem solteiro procura

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h51

Publicado pela 1ª vez em 10/01/2011
Passei alguns dias “solteiro” entre o fim do ano velho e o começo do ano novo, com um intervalo pra poder matar a saudade da família na praia. Foi uma experiência que serviu para mostrar minha competência em outras áreas do conhecimento humano. Apesar da modéstia, vou relatar alguns dos meus grandes sucessos no período.
Comecei tirando a roupa da máquina de lavar. A “presidenta” da casa deixou a operação em andamento antes de viajar. Peguei peça por peça e coloquei cada uma na secadora, com delicadeza tipicamente masculina. Fiz tudo sozinho, sem nenhuma ajuda. Tá bom, coincidentemente, minha “excelência” ligou pra saber se estava tudo bem e perguntei qual botão deveria apertar. Mas foi só isso. Bem, tive também uma pequena dúvida sobre como seria o “sentido horário” de outro comando, mas um simples olhar para o relógio da cozinha foi suficiente para comprovar minha extrema esperteza. Sou o melhor na categoria “Lava Roupa Todo Dia, Que Agonia”.
Arrumei a cama e lavei louça sem drama porque já faço isso de vez em quando. Meu problema foi com o outro ser vivo que ficou em casa comigo: o peixe. Prometi ao meu filho que cuidaria bem do habitante do aquário e deixaria a comidinha lá nos dois dias em que estaria na praia. Foi apenas um pequeno lapso de memória. O peixe só ficou em jejum no meu primeiro dia sozinho em casa… E nos seguintes… E no tempo em que estive fora também. Ainda bem que sobreviveu. Quando voltei, despejei o alimento com gestos absolutamente masculinos. Passei a conversar com ele diariamente, de homem pra peixe, sem palavrinhas no diminutivo. Né, peixinho? Sou muito bom na categoria “Papai Molusco”.
Tive também um pequeno desentendimento com alguns brinquedos que estavam no armário. Fui pegar um deles para levar para o meu filho e, de repente, como se fosse uma “Toy Story”, todos vieram abaixo. Um robô se mexeu e começou a falar comigo. Dei um grito e um pulo brutalmente masculinos, mas não me assustei, de jeito nenhum. “Troféu Ai, Ui, Ai, Ui, Ai, Ui…” para mim.
Minhas refeições foram tranquilas. Sempre almoço fora por causa do trabalho e o jantar nos últimos tempos tem sido à base de lanches leves. Mas resolvi me aventurar na cozinha duas vezes, preparando pratos saborosos: ovo mexido e ovo cozido. No primeiro quitute, é só colocar um pouco de óleo, deixar esquentar, atirar o ovo na frigideira e mexer. No segundo, basta jogar o principal ingrediente numa panela com água e deixar ferver. Tudo com sutileza totalmente masculina. As duas receitas têm um segredo… Não, não vou revelar agora pra não fugir da história e fazer isso aqui virar um programa de culinária. Fica para daqui a pouco, mas já posso me considerar imbatível na categoria “Piloto de Fogão”.
Nos dias de “solteiro”, não descuidei da boa forma. Continuei a fazer caminhadas, exercícios e a me alimentar de maneira (mais ou menos) saudável. Não estava nos meus planos, mas emagreci mais um quilo, sempre com porte e desempenho decididamente masculinos. Quando fui para a praia, percebi alguns olhares diferentes e mais do que isso não revelo, nem sob tortura. Parece que magros despertam mais atenção. Sou destaque na categoria “Tórax de Prancha”.
Mas o momento apoteótico ainda estaria para acontecer. Foi quando resolvi enfrentar o sol e tirei a camiseta na areia. Uma tremenda covardia… Não teve pra ninguém… “Troféu Branquelo 2011” para mim. Depois, ainda saquei da bolsa um protetor solar em spray fator 60 e espalhei em jatos abundantes pelo “corpitcho”. Só pra humilhar! Tudo em movimentos sincronizados e docemente masculinos.
E assim foi meu começo de ano novo, cheio de troféus que dão inveja a muita gente. Ah, faltou o segredo do ovo mexido e do ovo cozido. Anotem aí, porque não é sempre que um premiado “gran chef de cuisine” revela uma técnica tão apurada. A genialidade está na quebra da matéria-prima. Para fazer o ovo mexido, quebra-se antes. No cozido, é depois. Imagino que queiram atirar ovos em mim agora e peço calma porque eles não merecem isso, coitados. Homem “solteiro” procura, mas nem sempre acha. E às vezes “se” acha.

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