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Holandês, em bom Português

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h27

Publicado pela 1a vez em 10/04/2008 21:45:00
Ouvi o presidente Lula dizer que é preciso produzir mais alimentos para combater a alta dos preços. Foi na Holanda, onde ele também rebateu as críticas de que o etanol pode tomar o lugar do cultivo de alimentos.
A notícia me fez lembrar de um holandês que me ensinou Português. Sim, ele foi o responsável por despertar num garoto de 11 anos o gosto pela Língua Portuguesa e pela Literatura. Era o ano de 1975 e o sotaque logo chamou a atenção daquele bando de pirralhos. O apelido, então, provocava risos. O Frei Crisóstomo era conhecido como Frei Fofinho e assim gostava de ser chamado pelos alunos do Instituto Dona Placidina, em Mogi das Cruzes.
Era rígido, ao exigir que a classe decorasse a conjugação de verbos e testar nossos conhecimentos em chamadas orais. Mas também era doce e bonachão ao incentivar o gosto pela redação em cada um de nós. Os textos eram lidos em voz alta. Cada aluno tinha de se levantar e contar sua história para todo mundo ouvir. Com o Frei Fofinho, comecei a perder a vergonha de falar em público.
Aos poucos, fui me aproximando cada vez mais dele em conversas nos corredores da escola, fora da sala de aula. Hoje, pensando bem, não entendo porque Frei Fofinho dava tanta confiança a um moleque tão chato e sem graça. Um dia ele me disse:
– Você vai ser jornalista e escritor, mas nunca deixe de ser espirituoso.
Nunca tinha ouvido essa palavra e fiquei com vergonha de perguntar o significado. Fingi ter entendido e fui consultar o dicionário, mas continuei sem entender o espírito da coisa.
Sabendo que eu era filho de sírios, Frei Fofinho me fazia perguntas sobre os nossos costumes, retribuía contando histórias da Holanda e logo fazia comparações com o Brasil.
– Este é um país abençoado por Deus com a fartura de alimentos, mas precisa saber distribuir para todos.
Um dia fui visitá-lo na casa paroquial da Igreja do Carmo para mostrar alguns textos. Depois de ler e rir, ler e rir, ler e rir… Ele disse:
– Você é muito espirituoso mesmo!
Tomei coragem e resolvi perguntar:
– Espírito do quê? Isso é bom ou ruim?
– É muito bom, só que tem padre que não gosta. Mas Deus também quer ver a gente alegre.
Depois de finalmente entender a explicação, saí de lá achando que já era gente e dias depois tive uma surpresa. Alguém me viu entrando na igreja e logo correu para relatar o fato ao meu pai, muçulmano. Ele me contou o milagre, mas não disse quem era o santo do pau oco.
– Ah é? Ele estava na igreja? Que susto que você me deu! Do jeito que veio correndo me contar pensei que ele estava no bar tomando pinga!
Naquela mesma hora, entendi na prática o significado de ser espirituoso.
O presidente Lula apareceu na TV e interrompeu minhas boas lembranças ao explicar os motivos da escassez de alimentos:
– Os pobres do mundo começaram a comer!
– Espírito do quê? Isso é bom ou ruim?
Muito espirituoso, diria Frei Fofinho!

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