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Gentilezas matinais

Haisem Abaki

22 Janeiro 2016 | 09h57

Comecei o ano novo sem trabalhar, por causa das rápidas férias, mas do mesmo jeito que havia encerrado o velho: correndo. Já fui pra rua no segundo dia de janeiro, após o desafio lançado por um amigo no aplicativo que usamos para monitorar nosso desempenho. O objetivo é correr mil quilômetros em 2016. Fazendo as contas, na base do dia sim, dia não, até que não é muito. São 21 quilômetros por semana, 84 por mês. A meta de janeiro já foi até superada, mas nada de comemorações. Vou deixar o ano correr pra ver como fica e voltar ao assunto depois.

Então acabou a crônica? Calma, ainda não. Só vou tomar outro caminho, mas ainda correndo. Sem o compromisso de acordar às quatro da madrugada para falar no ouvido das pessoas, resolvi experimentar as corridas matinais com maior frequência e não somente aos domingos.

Peguei um bronzeado de pescoço no início e decidi sair mais cedo para escapar um pouco do sol e só ter a companhia dele no fim da atividade. Um cuidado necessário, já que sou mais branquelo do que promessa de comercial de sabão em pó.

Foi quando notei uma diferença de comportamento nos corredores que encontrava na rua e no parque. A turma dá “bom dia”, acena, sorri e até puxa papo. Tudo no maior gás, com bom humor e sem perder o pique. Estava acostumado com o público da tarde/noite, que também é formado por gente educada, mas mais discreta.

Ultrapassei três senhores de cabelos brancos que corriam e conversavam animadamente sobre um baile. Foram três efusivos e sequenciais cumprimentos, da direita para a esquerda. Bom dia! Bom dia! Bom dia! Todos desse jeito, com exclamação. Quatro com o meu. Bom dia! Segui em frente e o trio feliz ria, de bem com a vida.

No sentido contrário, vinha um sujeito caminhando. Tinha uma proteção na cabeça e logo percebi que era careca. Ele me cumprimentou levantando um pouco o chapéu e pude ver a falta de telhado. Bom dia! Bom dia!

E assim foi o tempo todo. Além de um bom dia atrás do outro vieram acenos com a cabeça, sorrisos, cumprimentos com mãos espalmadas ou com o polegar em sinal de positivo e até gentilezas de ciclistas dando passagem, esses bem diferentes de outros dois que quase me atropelaram com suas rodas bípedes durante corridas com o sol se pondo.

Fiquei tão contagiado que em alguns encontros casuais eu mesmo passei a tomar a iniciativa de cumprimentar as pessoas. Não que eu seja um esnobe corredor da tarde. Como sou distraído, focado na corrida e “só um pouquinho” deficiente visual, já passei pelo constrangimento de não notar gente conhecida. Então, costumo ficar no meio termo, quase sempre com um leve gesto com a cabeça ou com a mão.

É mais ou menos o que vejo umas moças fazerem quando cruzam o meu caminho. As acompanhadas normalmente deixam os cumprimentos a cargo do rapaz. As que vão sozinhas ou com alguma amiga dão aquela “cumprimentadinha” com um olhar ou sorriso. Ou com os dois… As da manhã também são “mais interativas” do que as compenetradas garotas do fim do dia.

Mas numa coisa todas parecem ser iguais, de manhã, à tarde, à noite… Eu numa cachoeira de suor e elas perfumadas, por mais que tenham corrido. Recebam então os meus cumprimentos matinais, vespertinos e noturnos. Sempre respirando fundo diante de tanta fragrância. Na verdade é muita inspiração… Refiro-me ao cheirinho bom que fica no ar, claro!