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Frejat, Cat Stevens e o ministro da Educação

Haisem Abaki

26 de abril de 2019 | 12h51

Pode parecer política, mas não é. O que escrevo daqui pra baixo é muito mais complexo ou talvez paradoxalmente simples: é sobre um negócio chamado “vida”. E a reflexão me foi trazida involuntariamente pelo presidente da República e seu ministro da Educação, em escritos e falas sobre a redução de investimentos na área de Humanas, como Filosofia e Sociologia, para focar em segmentos “que gerem retorno imediato ao contribuinte”, como Engenharia e Medicina. O condutor da nossa política educacional chegou a demonstrar em entrevista ao Estadão toda a sua preocupação com um filho de agricultores que quisesse estudar Antropologia, como se ele só pudesse cursar Veterinária ou Agronomia.

Fiquei incomodado, sim. Mas nem um pouco a fim de entrar na besta polarização entre “nós e eles”, “bem e mal” ou “nova política e velha política”. Apenas penso que um ministro, principalmente da Educação, não deve achar nada sobre as escolhas profissionais de quem quer que seja. Falo só por mim e não o autorizo a avaliar o que meus filhos devem ser, até porque eu mesmo não faço essa análise. Quero somente que eles sejam o que querem ser. Que façam bem às outras pessoas. E que sejam felizes em suas escolhas.

E a crítica acaba aqui. Agora vem o agradecimento. Porque me deu vontade de fazer um “detox mental” com a lembrança de dois caras que gosto de ouvir: Frejat, que faz aniversário no mesmo dia que eu, e Cat Stevens, que virou Yusuf Islam depois de abraçar o Islamismo. Escrevi abraçar porque me incomoda dizer que alguém se converteu como se antes estivesse no mau caminho.

Iniciei o processo de desintoxicação ouvindo “Amor pra Recomeçar” no último volume com os fones bem enfiados nos ouvidos. Resolvi, então, ser tolerante com o ministro. “E com os que erram/Feio e bastante/Que você consiga/Ser tolerante”. E me acalmei mais ainda mentalizando coisas positivas para os meus filhos, mas sem querer interferir na vida deles. “Eu desejo/Que você ganhe dinheiro/Pois é preciso/Viver também/E que você diga a ele/Pelo menos uma vez/Quem é mesmo/O dono de quem”.

Aí fui para “Father and Son” e percebi que tudo tem o seu tempo. “Não é tempo de fazer uma mudança/Apenas relaxe, vá com calma/Você ainda é jovem, por isso erra/Ainda há muito que você tem que saber”. E depois a parte que mais aprecio. “Olhe para mim, eu estou velho/Mas eu sou feliz”. Tudo no último volume também pra espantar de vez aquelas frases ministeriais intrometidas.

Meu pai ficou feliz quando fui ser jornalista, ganhando menos e trabalhando mais, abrindo mão de uma carreira pública que poderia me levar a ser juiz ou promotor. E sinto agora essa felicidade em dose dupla, com minha menina estudando Políticas Públicas (ih, talvez alguma autoridade ache que não é muito adequado porque faz pensar) e o meu menino querendo caminhar pela Engenharia (ah, isso imagino que não haverá autoridade pra contestar).

No mais, é deixar a vida correr, respeitando as escolhas deles. E aproveitar mais cada minuto ao lado dos dois em vez de embarcar nessas discussões falsamente polarizadoras de gente que vive na rede virtual e deixa de viver a vida real. Esse assunto é muito complexo mesmo ou talvez paradoxalmente simples. Coisa que talvez um dia algum antropólogo filho de agricultores possa explicar.

 

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