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Frases embaralhadas

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h05

Publicado pela 1a vez em 04/01/2008 10:00:00
Toda virada de ano é época propícia para relembrar as frases mais marcantes do período que termina. Em junho, quando ouvi o “Relaxa e goza” da ministra Marta Suplicy, lembro-me que alguém na Redação logo disse que “isso vai virar frase de fim de ano”. Dito e feito: a fala símbolo do apagão aéreo está por aí, esbarrando em nós em todas as retrospectivas.
Outras frases famosas foram relembradas nestes últimos dias, na passagem de 2007 para 2008. Indo contra tudo o que prego e procuro praticar no jornalismo, me pus a pensar como algumas dessas pérolas ficariam se fossem ditas fora do contexto. Nós jornalistas adoramos contextualizar tudo, mas como estou em férias resolvi “descontextualizar geral”.
Começando pelo “Relaxa e goza”, deixemos de lado o caos aéreo. A frase bem que poderia ter saído da boca da oposição venezuelana para Hugo Chávez, depois da derrota dele no plebiscito em que pedia poderes divinos. Poderia também ter sido mais uma do capitão Nascimento, em mais uma incursão diante de um bandido ameaçador da elite. Talvez ficasse boa no meio de tiros e bombas em mais um dia rotineiro na Faixa de Gaza. Ou então na boca de um corintiano de primeira conformado com a segunda.
Nas variações sobre o mesmo tema, o ministro Guido Mantega encontrou uma boa explicação para o caos aéreo: “É a prosperidade do país”. A frase também ficaria boa se dita por um inspetor da Polícia Rodoviária, diante do recorde de mortes nas estradas. É a prosperidade, sem dúvida nenhuma, com mais gente viajando e morrendo. Poderia ser também de uma autoridade policial, confrontada com os arrastões em condomínios de luxo em São Paulo. Ou de algum consumidor da “pílula do amor”, de olho no crescimento sustentado. Ou de um jornaleiro, ao explicar ao senador Eduardo Suplicy que a revista da Mônica Veloso estava esgotada. Ou ainda do Zeca Urubu tentando aplicar mais um golpe no Pica-pau.
“Foi uma vitória de m…, e a nossa derrota, uma derrota de coragem”. Esqueça Hugo Chávez. Quem mais poderia ter dito isso? Algumas alternativas: o presidente Lula (sem a CPMF), o senador Renan Calheiros (sem a presidência do Senado, mas com mandato), a Miss Brasil Natália Guimarães (ao ficar em 2o lugar no Miss Universo) o Bart Simpson (em qualquer contexto) ou o Vampeta.
“Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante”, foi a explicação do presidente Lula para defender a CPMF que antes combatia. Quem mais, além do presidente, poderia ter copiado o Raul Seixas? A própria oposição de hoje, que quando era situação criou o imposto. O baiano Geddel Vieira Lima, que depois de virar ministro da Integração Nacional passou a apoiar a transposição do rio São Francisco. Todos os políticos que mudaram de partido (a lista não caberia aqui). O príncipe Dom Pedro, antes ou depois do brado retumbante que ouviram do Ipiranga. Luxemburgo, de volta ao Palmeiras.
Para terminar, uma frase proferida pelo rei Juan Carlos da Espanha para um mui falante Hugo Chávez: “Por qué no te callas?”. Não consigo fazer o ponto de interrogação de cabeça para baixo no início, como os espanhóis, mas vamos ao exercício de embaralhamento. Isso ficaria muito bom na boca do próprio Chávez e do Bush, frente a frente, numa guerra verbal entre ambos. Mas a melhor função seria a de antídoto do cidadão comum para todas as frases anteriores. E mais não digo porque estou em férias. É hora de relaxar e gozar, de curtir o descanso depois de um ano de prosperidade, de pensar em vitórias m…aravilhosas em 2008, de se metarmofosear corrigindo os erros e, finalmente, de ficar calado. Até sexta que vem, dia 11.

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