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Floyd não explica o ódio, mas tira nossas máscaras!

Haisem Abaki

05 de junho de 2020 | 11h06

George Floyd foi assassinado em “mais um” entre milhões de “casos isolados” de ódio racial. A diferença, desta vez, é que um negro não foi morto pela mão de um policial branco, mas pelo joelho, num filme de terror de quase nove minutos de duração. E seres (ainda) humanos indignados, desafiando de máscara uma pandemia, estão indo às ruas por suas próprias pernas e se pondo de joelhos em protesto para desmascarar a eliminação de mais uma vida negra que parecia “não importar”.

Assim, ressurge o batido jargão jornalístico de “reacender o debate” sobre determinado assunto, até desaparecer do noticiário. A profissão me exige fazer parte disso, mas me incomoda profundamente a politização falsamente ideológica de uma morte. E com uma Bíblia na mão o líder (líder?) que deveria promover a união, mesmo que hipocritamente, trata os manifestantes como se fossem terroristas e joga um cadáver no cemitério de ideias que decompõe a vida e a transforma somente em pó da disputa entre direita e esquerda.

Aqui, entre nós, com um racismo “camuflado” que convenientemente fingimos não ver, também são despertados e estimulados este e outros ódios, alguns protegidos sob o manto sagrado da “liberdade de expressão”. E quem ousa levantar o véu e a voz abafada pela máscara protetora de contaminação é chamado de “terrorista” e “marginal” por outro líder (líder?) que desune e só acha lindas as manifestações em favor dele. E entre os seus devotos seguidores, Bíblias, armas, tochas e “inofensivos” tacos de beisebol podem estar juntos em uma “procissão patriótica”. A “exclusividade” do patriotismo é deles.

Alguém quis puxar um “debate” comigo em rede social, mas estou me afastando cada vez mais desse tipo de gente, egoisticamente, em favor de minha própria sanidade mental. Tenho a “sorte” de ser branco e de poder trabalhar em casa e preparar uma sopa pra aquecer uma noite fria. E de poder fazer exercícios entre quatro paredes enquanto a panela de pressão está no fogão.

Comecei a caminhada diária entre a sala, o corredor e o quarto, como de hábito, com música nos ouvidos no modo aleatório. E surgiu Roger Waters (patrulheiros em alerta!) com We Shall Overcome. Veio, então, a esperança de um dia vencermos o ódio. Mas ainda era pouco.

Segui na rockaminhada e uma pilha de livros empoeirados na estante capturou meus olhos: uma coleção de Gibran Khalil Gibran, que ganhei de pai e mãe na adolescência. Precisei de uma quarentena para “descobrir” que estavam ali. A memória trouxe meu pai de volta me aconselhando a ler Gibran em diferentes épocas e fases da vida porque aquelas palavras sempre me dariam respostas. E completou afirmando com veemência que pessoas de bem não dizem que são de bem, apenas são de bem.

Terminei o percurso de assoalho e lembranças e fui para os privilégios do banho e da sopa, mas ainda com aquele pensamento persistente, perturbado ao mesmo tempo pelo barulho e pelo silêncio em torno de mais uma vida negra perdida e de tantos outros crimes e injustiças não filmados. Fui à estante e peguei nove livros de Gibran. Acho que outros se perderam em idas e vindas. Abri “O Profeta” aleatoriamente e caiu em uma parte em que ele falava sobre crime e castigo.

“Frequentemente tenho-vos ouvido falar daquele que comete uma ação má como se não fosse dos vossos, mas um estranho entre vós e um intruso em vosso mundo. Mas eu vos digo: da mesma maneira que o santo e o justo não podem elevar-se acima do que há de mais elevado em vós, assim o perverso e o fraco não podem descer abaixo do que há de mais baixo em vós. E da mesma forma que nenhuma folha amarelece senão com o silencioso assentimento da árvore inteira, assim o malfeitor não pode praticar seus delitos sem a secreta concordância de todos vós. Como uma procissão, vós avançais, juntos, para vosso Eu-divino”.

Lá estava a resposta que muitos de nós ignoramos. Floyd não explica tanto ódio, mas tira nossas máscaras. Cidadãos verdadeiramente de bem, que não precisam berrar que são cidadãos de bem erguendo Livros Sagrados de diferentes religiões nem seguir fanáticas e discriminatórias seitas políticas, serão capazes de entender e não se calar. We shall overcome!

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