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Filosofia digna de crédito

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h15

Publicado pela 1a vez em 15/02/2008 10:00:00
Domingo, 10 da noite, véspera da volta às aulas.
– Triiiiiiiim, triiiiiiiiiiiiiim, triiiiiiiiiiiiiiiim…
– Que barulho é esse?
– É o despertador, pai. Eu pus pra despertar pra saber a hora de dormir. Amanhã tem escola, ai que saudade da escola… Pai, você sabia que eu vou ter uma aula chamada filosofia?
– Espera, você pôs o relógio pra despertar pra saber a hora de dormir?
– É que eu estou muito ansiosa, quero que amanhã chegue logo… Paaaaai, o que é filosofia?
Mais uma vez, demorei para assimilar a pergunta. Filosofia na 3a série?
– Fala pai, o que é filosofia?
– Filosofia… é estudar o pensamento humano, a transmissão de conhecimento, de sabedoria, de ética…
– O que é ética? Eu vou aprender a adivinhar o pensamento das pessoas?
Parecia que eu estava em meio a um bombardeio.
– Ética… ética é fazer as coisas certas, é não prejudicar ninguém. E você não vai adivinhar nada, vai entender o pensamento das pessoas. Vamos fazer o seguinte: você assiste a primeira aula e depois me conta.
– Tá bom, pai. Vou fazer a minha oração. Boa noite.
No dia seguinte, minha semana de trabalho na Rádio Bandeirantes começou do mesmo jeito que terminou a anterior. O principal assunto ainda era a farra do uso do cartão de crédito do governo “deste país”. Seguimos na mesma ladainha na terça, na quarta, na quinta… No meio do tiroteio entre os políticos que têm os tais cartões corporativos e os que adorariam ter de novo, uma frase me chamou a atenção. Estava na Dutra, de volta para casa, quando ouvi no rádio o ministro José Múcio.
– O governo que criou a transparência poderia ter usado melhor essa transparência e ter feito algumas correções a tempo.
Humildade ou arrogância? Na filosofia dos atuais donos do poder, transparência é mais uma obra deste governo. Acho que me distraí e não percebi um caminhoneiro irado querendo me ultrapassar. Ele foi embora, mas ainda tive tempo de ver a filosofia de pára-choque.
– Político bom é político desempregado.
Minutos depois, outro filósofo da boléia passou por mim.
– Quanto mais conheço os homens, mais admiro os cachorros.
Em casa, uma garotinha me esperava para contar como tinha sido a primeira aula de filosofia. Ela estava fascinada com a clássica história de um bando de porcos-espinhos que ficou bem juntinho para se aquecer no frio. Muitos morreram espetados até que alguns sobreviventes perceberam que precisavam ficar perto um do outro, mas não grudados.
– O que você entendeu disso tudo?
– Que a gente precisa conviver bem e respeitar o espaço do outro, ué!
Se eu não estiver enganado, essa história é do filósofo alemão Schopenhauer, conhecido pelo pessimismo e por viver em isolamento.
Para mim, o que importa é que aprendi de novo com a minha filósofa da 3a série. Ouvir os políticos faz parte da profissão, mas acho que vou colocar o despertador pra me avisar que está na hora de dormir!

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