As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Filho da mãe do cartão de crédito

Haisem Abaki

28 Julho 2017 | 10h20

Uma senhora de quase 80 anos pede ajuda ao filho por não ter recebido a fatura do cartão de crédito que venceria no dia seguinte. O rapaz (sim, o cara é um rapaz) baixa um aplicativo para ter acesso aos dados, preenche tudo direitinho e aparece uma mensagem solicitando uma senha de oito caracteres. O moço (sim, moço) digita uma sequência fácil de memorizar. É pedida a confirmação e ele repete aquela “numereba” toda. E vem um aviso de que não era possível habilitar o serviço por ali, só no banco ou no autoatendimento do dito cujo.

Então, o jovem (sim, jovem) parte para o atendimento telefônico. Sabendo das dificuldades auditivas da mãe, ele ouve as 914 opções disponíveis e vai teclando até chegar a uma atendente e receber um aviso: ela só poderia manter contato com a titular do cartão. São regras do Banco do Brasil, justifica a funcionária que parecia falar “carioquês”.

O rapaz (reitero, rapaz) coloca o celular no viva-voz, passa para a mãe e fica  acompanhando a conversa. A atendente pede o nome da cliente e os quatro últimos números do cartão. Na sequência, pergunta como pode ajudá-la. Ao saber que a fatura não havia chegado tenta confirmar o endereço. Pede um instante e volta pra dizer que o local de entrega cadastrado era outro e que a mudança só poderia ser feita com uma senha de acesso. Aqueeeela, de oito dígitos! E explica que isso só poderia ser feito pessoalmente, na agência em que a dona do cartão tem conta.

O moço (já mencionei que o filho é moço?) murmura para a mãe ver se consegue apenas o valor da fatura e o código de barras para pagamento. A simpática funcionária ouve e pede mais um instante para buscar os dados. Volta e informa que a cliente não receberia o documento naquele mês porque tinha um crédito. Enfim, pra resumir a história, ela pagou a mais.

E assim, não falando com atendente, o jovem (qualquer um vê que ele é jovem) descobre que a mãe não havia quitado os valores integrais, foi fazendo pagamentos avulsos e acabou entrando automaticamente em um parcelamento de R$ 161,99 em 24 meses. Ela ficou confusa, alegando que não havia autorizado nada daquilo, mas o filho explicou que o governo havia mudado as regras. E a “tele garota”, que não estava conversando com ele, solta um “isso mesmo”, demonstrando alívio por alguém fazer o serviço dela de forma tão didática.

Aí, o prestimoso filho tem a brilhante (sujeito brilhante!) ideia de sugerir a antecipação dos pagamentos para liquidar tudo. A moça do outro lado da linha ouve e pede mais um instante.  Enquanto espera pela garota que não falava com ele, o maravilhoso filho faz a conta do parcelamento: R$ 3.887,76. Em seguida, a voz delicada volta para apresentar a conta pra zerar a dívida: R$ 1.626,14.

Então, aquele dedicado filho orienta a mãe a fechar o negócio de uma vez. A moça pede mais um tempinho, confirma o acerto, repete o valor e dita o código de barras para o sujeito com quem ela não estava conversando anotar. Tudo resolvido e todo mundo feliz. Foram 47 minutos e 25 segundos de não diálogo. E a cada interrupção para checar dados a gentil funcionária retomava o não papo agradecendo pela espera e pedindo desculpas pela demora. Simpática mesmo. Foi um prazer não conversar com a “bancodobrasilzete”. Ela deve ter sacado que o filho da mãe é um bom sujeito. A modéstia não me permite revelar quem é. Mas que merece crédito, ô, se merece…