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Feliz 2024, meu garoto!

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h50

Publicado pela 1ª vez em 11/07/2008
– Seu filho é tão palmeirense que me perguntou se quando crescer o Palmeiras vai existir ainda! Perdi o sono. Bom dia pra você. Beijo. Te amo.
Recebi esta mensagem pelo celular, às 6h14 da manhã de ontem. Já estava concentrado no trabalho, mas por alguns instantes consegui achar graça do dia que estava amanhecendo e deixei de lado as notícias sobre mais uma espetacular operação da Polícia Federal, as discussões políticas, as tragédias da violência e os resultados do futebol.
Comecei a pensar naquele garotinho de cinco anos, que às vezes faz sequências de perguntas sem levar em conta o relógio. Debaixo das cobertas, a maior preocupação com o futuro era apenas saber se o time do coração ainda vai existir quando ele virar “gente grande”.
Mostrei o torpedo ao meu amigo e editor Eduardo Guedes, que no meio da nossa correria para colocar o jornal no ar também sorriu, apesar de ser são-paulino. Por isso, fui logo explicando que não forcei o menininho a ser verde. Pelo contrário, ele me pegou numa fase em que já não sou mais aquele torcedor que recusava qualquer compromisso na hora do jogo. Se a partida não for decisiva, posso até ser encontrado empurrando um carrinho no supermercado.
Fui ao arquivo da memória e procurei a gaveta dos meus cinco anos. Não havia gaveta. Minha primeira lembrança futebolística é de quando tinha seis anos, na Copa de 70. Depois de um gol do Jairzinho, meu pai, que era muçulmano, se ajoelhou e fez o sinal da cruz. Virei palmeirense porque o time ganhou quase tudo de 1972 a 74, entre os meus oito e dez anos.
De repente, viajei em sentido contrário e me vi mais velho ao lado de um garoto que, desde que nasceu, dizem ter olhos iguais aos meus. Como o tempo já não está mais a meu favor, avancei apenas 16 anos, e me vi em 2024. Eu aos 60 anos, ele aos 21.
Nunca fui de me preocupar exageradamente com o futuro, mas fiquei pensando no mundo em que o menino verdinho de hoje vai viver. Sou otimista e espero ainda estar trabalhando no que gosto, mas com notícias melhores para dar em 2024.
– O empresário Oportunista Mão Grande é preso por tentativa de suborno e não consegue a liberdade provisória!
– Policiais perseguem e prendem bandidos, mas protegem uma família que ficou presa no meio do tiroteio!
– Os bafômetros comprados pela polícia em 2008 vão para um museu porque nenhum motorista dirige mais depois de beber!
– O governo extingue o programa Bolsa Família porque não há mais pobres para receber o benefício!
– O deputado Mauzinho da Fossa admite ser o único parlamentar com ficha suja e decide deixar a vida pública!
– Depois de 18 mandatos consecutivos, Petardo Peixeira desiste de comandar o futebol brasileiro!
– Os professores recebem aumento salarial pelo 16o ano consecutivo e não fazem greve desde 2008!
– A meteorologia prevê que neste ano de 2024 haverá Verão no Verão, Outono no Outono, Inverno no Inverno e Primavera na Primavera!
– O Fundo de Solidariedade pede que as pessoas não doem agasalhos porque ninguém vai precisar!
– Estréia hoje nos cinemas um documentário que mostra como eram os congestionamentos em São Paulo!
De repente, meu exercício de imaginação é interrompido:
– E aí, você viu as manchetes?
Era o Eduardo Guedes, querendo saber se eu já havia aprovado a abertura do Primeira Hora.
Apresentei o jornal pensando que lá em casa um garotinho que fez a mãe perder o sono estaria ouvindo tudo.
Tomara que o seu time seja campeão de novo em 2024, meu garoto! Já vou deixar a manchete pronta, apesar do empatezinho de ontem.

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