As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Eu não gosto de batucada, só que sim!

Haisem Abaki

27 Outubro 2017 | 11h42

Eu não sou do tipo, tristemente cada vez mais comum nos nossos dias, que tem amor ou ódio por isso ou aquilo. Também não sou do tipo que fica em cima do muro e que desce para um lado ou para o outro de acordo com a conveniência do momento ou sob a influência do aplauso fácil da plateia.

Feita essa “filosofada” inicial suficiente para dar uma bela enrolada no tema, vou direto ao ponto. Carnaval, samba e batucada nunca foram meus amigos do peito. Mas nunca foram meus inimigos de morte também. Enfim, nada de paixões a favor ou contra. Mas admito que, desde criança, já não me animava muito com a farra de fevereiro, às vezes de março.

Talvez por uma associação com o nascimento do meu saudoso irmão, que teve paralisia cerebral. Foi em um dia de Carnaval e o médico, com a bagunça na rua, não chegou a tempo para o parto, que foi bem complicado. A folia anual virou uma data de lembrança de sofrimento e meus pais, assumidamente, diziam detestar tanta comemoração.

E assim fui vivendo minha relação distante com esse período anual de festança generalizada. Em 1987, veio a minha primeira cobertura de Carnaval, ainda em Mogi. Depois, a partir de 1992, vieram tantas outras, já em São Paulo. Não sei exatamente quantas, mas foram muitas idas ao sambódromo para desfiles emocionantes e apurações nervosas e briguentas.

Comecei a entender um pouco mais o amor das pessoas por aquilo, a dedicação ao longo do ano todo, a criatividade dos carnavalescos, as dificuldades e o engajamento das comunidades que formam as escolas de samba e os blocos. Mas continuei do mesmo jeito, sem paixão. Era um dever profissional e nada mais. Se era escalado para a cobertura, eu ia e tentava fazer o melhor que podia. Se não fosse escalado, ficava longe da passarela e só acompanhava o essencial para o meu trabalho nos plantões carnavalescos. Nada mais do que isso.

Aí chegou o ano de 2017 e uma menina que amo muito entrou para a faculdade. Eu estava mais preocupado com as matérias que a minha estudante preferida teria pela frente. Mas logo ela chegou animada e me contou que a turma da USP Leste tinha uma bateria que participava de várias competições. No começo achei que o interesse dela seria passageiro. Não dei aqueeeele incentivo nem neguei apoio. Falei um “legal” e deixei rolar.

E aos poucos fui vendo que a coisa ficava cada vez mais séria. Batucada, para leigos ignorantes como eu, pode parecer apenas um bando de gente no meio de uma bagunça, sem ter algo mais “útil” pra fazer. Com certeza, alguém de fora vai pensar que eles ficam lá, batucando, em vez de estudar… Nada disso!

Nada disso mesmo. Ela começou numa espécie de escolinha, como se fosse futebol. Foi bem e subiu para “o time principal”. E rolam campeonatos em que as universidades disputam diferentes divisões. Quem está na “segundona” tenta subir, como acontece no futebol. Tudo com muito ensaio e aprendizado com os veteranos. Mas tinha que ser surdo o instrumento da ritmista que batuca o meu coração? Na primeira vez que vi, numa apresentação na Avenida Paulista, parecia gigante diante dela. Será que ela vai aguentar? Pois aguentou e deu show.

Veio a primeira viagem com a bateria, que trouxe um terceiro lugar. Ela ficou feliz, mas me disse que o segundo seria mais justo. E num sábado de outubro fui parar na quadra da X-9 Paulistana. Pelo que entendi, era o “Brasileirão” da batucada, com dez baterias. No caminho ela dizia que não tinha conseguido dormir direito, que havia sonhado com a apresentação e demonstrava ansiedade.

Vinte minutos pra cada bateria, fora o “esquenta”. E a coisa foi esquentando mesmo. Até “balancei” um pouco o “corpitcho”, mas obviamente fui incapaz de atingir o mínimo de malemolência que o ambiente exigia. E chegou a vez da sexta apresentação: Bateria Bandida da EACH-USP Leste. Tive um forte “suor nos olhos”. E veio o primeiro título de campeã, com quatro décimos de vantagem sobre a segunda colocada. Mas ela poderia até ter ficado em último lugar que não mudaria em nada o que aconteceu comigo. De repente, aos 53 anos, comecei a gostar de batucada desde criancinha.