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Escrevendo contra a deprê

Haisem Abaki

08 Junho 2018 | 11h56

Isso aqui não é propaganda, viu gente? Mas acho que vocês já sabem que acabei de lançar um livro de crônicas, né? Sem querer repetir aquele velho e batido discurso de políticos convencidos pelas bases ao sacrifício de uma candidatura, digo que só virei escrevinhador porque tenho amigos que me incentivaram a me aventurar por esse caminho.

O primeiro empurrão veio de uma colega de profissão, a querida Juliana Verboonen, pra quem vai um agradecimento especial por ter visto “qualidades” que eu até hoje não enxergo e que a timidez não me deixa descrever aqui. Depois, apareceu o professor e escritor Nelson Valente, que me deu as primeiras dicas, mas “endoidou” ao garantir que posso escrever um romance. E a Nilza, a mãe dos meus filhos e personagens principais do livro, completou o serviço. E, claro, vários ouvintes também deram aquela força, mas seria injusto aqui se fizesse citações que gerariam esquecimentos. Estão todos na memória do coração, sim. Assim como os amigos Elizeu Silva, com o ponto de partida do projeto, e Robson Morelli, oráculo e editor das “escrevinhações” que viraram livro.

Nesses últimos dias, quatro ouvintes me enviaram mensagens que a timidez também não vai me permitir detalhar, mas basicamente com o mesmo conteúdo. Diziam que as crônicas são leves e muito diferentes das notícias pesadas dos meus comentários no dia a dia. Já fiz os agradecimentos, mas aí vai uma explicação, pretensiosa, em forma de crônica.

Sempre gostei de escrever, mas tinha abandonado essa prática pra me dedicar mais ao rádio. A vontade voltou depois da trágica perda do meu pai. A vontade foi reavivada por uma morte. A vontade foi despertada por uma profunda depressão. Parece contraditório que a depressão possa fazer alguém se expressar com textos que os leitores consideram leves, mas é isso mesmo.

A tristeza foi imensa, mas só me trouxe as boas lembranças do Seu Mohamed em nossos 43 anos de convivência. Um cara que em 81 anos de vida só transmitiu bons ensinamentos, ética, religiosidade, alegria, bom humor, amor e tolerância. Que me fez pensar e aceitar o pensamento de quem não concorda comigo. E que, mesmo sendo de esquerda, enxergava e não se omitia diante das mazelas de seus pares ideológicos.

Sem a presença dele, que se dizia “o mais próximo” da idade do meu filho, que na época tinha quatro anos, comecei a prestar mais atenção na Vivian e no Vitor e no mundão novo que eles descobriam a cada dia. Foi quando resolvi caminhar e depois correr, correr e correr, tentando deixar o sofrimento para trás. E eu, quarentão na época, também fui me descobrindo nas minhas fortalezas e fragilidades. É por isso que são crônicas quarentonas, com a coincidência de serem quarenta no total.

Mas elas também escondem um erro meu. O erro de julgar que não podia fraquejar diante dos meus filhos. O erro de não demonstrar tristeza em nenhum momento. O erro de chorar sozinho sem dar pistas do que estava acontecendo comigo de verdade. O erro de me distanciar de todo mundo e ficar isolado no meu refúgio de mim mesmo. E assim, todo erradão, eu deixei de ser quem eu era e afastei pessoas queridas de mim. Até o dia em que, quase oito anos depois, fui procurar ajuda profissional. E digo, sem querer ditar regras, que quem está em profunda tristeza não deve ignorar esse sentimento.

Peguei o livro com cuidado, folheei devagar e não quis ler. Achei estranho ter esse tipo de leitura, de coisas que eu mesmo escrevi. Mas… Tá bom, superei esse medo e li as primeiras cinco crônicas ontem. Acho que estou me reencontrando com o cara que eu fui. Talvez isso explique o que ouvi outro dia de alguém muito especial que está me proporcionando este momento de resgate. Ela disse que sou um cinquentão menino. É como me sinto hoje na alma que rima com o nome dela. E no corpitcho também… Só que esses detalhes a timidez não vai me deixar explicitar. Ah, essa timidez…