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Em nome da bola

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h31

Publicado pela 1ª vez em 13/06/2010
Meus amigos de O Diário me convidaram para escrever algumas crônicas sobre a Copa. Fiquei feliz e ao mesmo tempo preocupado porque, na última vez em que tive textos publicados no jornal em que me iniciei na profissão, o Brasil ainda era tri e estava a cinco meses de um tetra no qual pouca gente acreditava.
Gosto de futebol desde criança, mas estou numa idade em que já penso mais nas Copas passadas do que na de hoje ou nas que ainda vão acontecer. A memória, então, trouxe alguns lampejos da minha primeira Copa, em 1970. Eu gostava do Presidente Médici. Calma, gente, eu só tinha seis anos e usava calças curtas! Eu não sabia nada de ditadura e ainda cantava músicas cheias de orgulho patriótico.
Só que foi aí que começou o meu namoro com a esquerda. Não foi consciência política precoce: eram as esquerdas do Gérson e do Rivelino mesmo. Todo o time de Pelé encantava, mas o cara que eu mais adorava era o Tostão, por uma razão muito simples: achava o nome engraçado.
De repente, comecei a adorar a extrema direita. O Jairzinho, pô, o Furacão da Copa! Só depois fiquei sabendo que ele tinha marcado gols em todos os jogos de 70. Por causa do camisa 7 da Seleção, uma imagem ficou gravada para sempre na minha cabeça.
O Jair costumava se ajoelhar e fazer o sinal da cruz ao comemorar os gols. Um dia, não me lembro em qual partida (acho que foi na final), meu pai se ajoelhou diante da TV preto e branco e repetiu o gesto. Coisa absolutamente normal, vocês devem estar pensando. Milhões de brasileiros, contra ou a favor do Médici, devem ter feito a mesma coisa. A diferença é que o homem lá em casa, cheio de fervor, era um muçulmano.
Foi a primeira de muitas outras lições que ele me daria depois. Para o velho, futebol e religião existiam para unir as pessoas e não para separá-las em torcidas e credos. Penso assim até hoje, dentro e fora de campo. Deuses da bola, rogai por nós, ainda que argentinos!

*Texto publicado na edição deste domingo, 13/06/2010, do jornal O Diário, de Mogi das Cruzes.

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