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É proibido sobreviver

Haisem Abaki

18 Maio 2013 | 19h20

Tenho acompanhado a guerra da Síria com um interesse que vai além, muito além, da frieza jornalística dos números de mortos, feridos e refugiados. Não me prendo também às declarações bombásticas dos vários lados envolvidos no conflito. Meu único momento de “pragmatismo” é quando pego o mapa do país e procuro o local da mais recente atrocidade para saber se foi perto de onde vivem meus tios, tias e primos. Por enquanto, todos dizem estar a salvo.
Soube esta semana que eles não pretendem deixar a cidade onde nasceram, apesar da proximidade com o Líbano, que para mim, daqui, parece ser a melhor alternativa. Hoje percebo que entre os mais velhos há um misto de “apoio” ao ditador com o medo de quem pode vir depois dele. Entre os mais novos prevalece a “esperança” de que, seja quem for, talvez não fique pior do que está.
Mas a morte passou perto, numa cidade vizinha e levou um homem que conheci em julho de 2010. Era um sujeito gentil e simpático. Nem sei o nome dele, que tinha um restaurante num bosque à beira de um rio e perto do Mar Mediterrâneo.
Foi à nossa mesa e ficou mais tempo do que nas outras quando fui apresentado por um tio como “meu sobrinho do Brasil”. Primeiro, o comerciante disse que gostava da minha terra. Depois, contou que estava triste com a eliminação da Seleção pela Holanda na Copa, alguns dias antes.
Ele se afastou para cuidar dos nossos pedidos e logo apareceram garçons que pareciam ir à nossa mesa com mais freqüência do que nas demais. Era uma espécie de rodízio, com travessas e mais travessas de kafta, tabule, quibe, pão, coalhada seca, pastas de grão de bico e berinjela assada…
Achei um exagero, mas não resisti a nada, principalmente à kafta, um dos melhores churrascos de bolinhos de carne moída no espeto que comi até hoje. Mais tarde ele voltou e queria promover novas rodadas de bandejas e mais bandejas. E ainda vieram os doces bem açucarados…
Um dos meus tios é (ou era, antes da guerra) um pequeno empresário, dono de uma fábrica de amendoins e sementes salgadinhas de girassol, que sempre acordava muito cedo pra trabalhar. O outro, professor aposentado. Até aquela noite, os dois não tinham me deixado pagar nada.
Quando a conta chegou, fui mais rápido, peguei a nota antes deles e logo fui tratado como se tivesse cometido um crime. Não paguei de novo, mas consegui ver o valor em liras para fazer a conversão em dólares e chegar aos meus suados reais: 120. Achei que estava errado e refiz o cálculo, mas o resultado foi o mesmo: 120 reais num jantar farto para 12 pessoas!
Aquele homem que gostava do Brasil, era atencioso com os clientes, fazia kaftas deliciosas e ainda cobrava barato morreu neste mês de maio. E não morreu sozinho. Com ele estavam esposa, filhos, noras, netos… Ainda não consegui saber o número exato de pessoas. Também não sei se eles eram “governistas”, “rebeldes”, “terroristas” ou se poderiam ser descritos por qualquer um dos rótulos sujos de uma guerra.
Na Síria, por tradição, muitas famílias moram juntas, embora nem sempre na mesma casa. Habitam prédios que sobem aos poucos, na medida em que os filhos se casam e vão chegando os netos. Foi num lugar assim que o homem da kafta inesquecível perdeu a vida sem deixar órfãos e crianças com saudades do avô.
Minha família vive num edifício parecido. Um tio e uma tia no térreo. Outro tio e um primo no primeiro andar e mais primos em outros dois pavimentos. Estarão sempre juntos, aconteça o que acontecer. Num país sem futuro ou num futuro sem país.